Por que, do nada, a febre amarela começou a aparecer?

Na verdade, o título deste texto deveria ser “O que causou o reaparecimento da febre amarela?”, pois a doença já é antiga no Brasil. Estudos sugerem que sua chegada teria sido junto aos navios negreiros, 400 anos atrás. Por anos a febre amarela assolou o país, estando presente em momentos importantes, como por exemplo na construção da ferrovia Madeira-Mamoré em 1910 (sendo uma das principais causas de morte dentre os trabalhadores) e nas grandes epidemias de 1928 e 1929 no Rio de Janeiro. Porém, em 1936, uma versão atenuada do vírus da febre amarela, incapaz de causar doença, foi desenvolvida e se tornou uma vacina.

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Assim, a febre amarela praticamente desapareceu do Brasil e em 1942 declarou-se que a febre amarela urbana havia sido erradicada. No entanto, o ciclo da febre amarela silvestre, transmitida ao homem por picada de mosquitos que vivem em florestas, continuou ativo até os dias de hoje. É por isso que a febre amarela não reapareceu do nada, o ciclo silvestre sempre se manteve ativo, levando à infecção de algumas dezenas de pessoas por ano em todo o Brasil e raras mortes.

O reaparecimento da febre amarela é uma importante preocupação para as autoridades, apesar de ter sido noticiado que não é motivo de alarde já que já possuímos uma vacina. Uma coisa é certa: não estávamos preparados. Em menos de 5 dias de notícias sobre surtos em zonas rurais e periurbanas, a população corretamente corre aos postos de saúde buscando uma dose da 17DD (a vacina) para se prevenirem contra a doença. No entanto, a desinformação reina: “Nossa! A doença nem chegou aqui ainda e esse povo vem aqui reclamar de uma vacina que acabou” disse uma funcionária em um posto de saúde de Belo Horizonte. É claro! A vacina é justamente para a prevenção, oras!

A febre amarela de 2017 já é um surto. Já são mais de 180 casos suspeitos e 53 mortes confirmadas em Minas (Dados do dia 17/01/2017) e esse número continua a crescer. No Espírito Santo, são mais de 80 macacos mortos. Quando esses animais aparecem mortos, isso indica que um surto está ocorrendo nas florestas e caso algum mosquito pique os macacos, a doença pode ser transmitida aos humanos. Desequilíbrios ambientais, como o desastre de Mariana, desmatamentos e alterações climáticas podem levar os macacos para mais perto das áreas urbanas, alterar populações e comportamentos de mosquitos e de animais hospedeiros, o que pode levar a uma maior possibilidade de alastramento de doenças silvestres para o meio urbano.

Os mosquitos que transmitem a febre amarela em meio silvestre são o Haemagoggus e o Sabethes. Caso a febre amarela venha a se alastrar de forma descontrolada para as cidades(o que acreditava-se ser impossível devido à vacinação), estamos encrencados. Nossas cidades estão infestadas de mosquitos Aedes aegypti e são poucas estratégias para monitoramento e controle. Como já falamos em alguns vídeos, existe uma empresa com sede em Belo Horizonte, que realiza esse trabalho de monitoramento e apoio à prevenção de epidemias. O Aedes aegypti, que também transmite a dengue, zika e chikungunya é perfeitamente capaz de transmitir a febre amarela em meio urbano.

haemagogus
Haemagogus
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Aedes aegypti
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Sabethes

Uma situação que ainda não foi estudada (e pode ser oportunidade para cientistas com esse aumento da importância da febre amarela em pleno século XXI) é a relação da vacina da dengue desenvolvida pela Sanofi Pasteur. Como também já mostramos em vídeo, essa vacina utiliza o arcabouço do vírus da febre amarela modificado, contendo material genético do vírus da dengue. Será que quem tomou a vacina da Sanofi pode ter uma reação exagerada ao entrar em contato com o vírus real da febre amarela? Estamos aguardando respostas!

A febre amarela é uma doença grave, que se não tratada leva à morte pelo menos 20% das pessoas infectadas. Apesar de ser causada por um Flavivírus, da mesma família dos nossos conhecidos vírus da dengue e da zika, a febre amarela ataca principalmente o fígado. O vírus também tem preferência por se multiplicar em órgãos internos, como rins, baço, linfonodos e até o cérebro. É o ataque ao fígado, somado a uma falência renal e a uma forte reação imune que levam a pessoa à morte. O seu nome “febre amarela” vem justamente da icterícia (olhos e pele amarelados) causado pela insuficiência do fígado.

Portanto, a febre amarela não é brincadeira. Provavelmente os surtos vão se resolver pois já temos vacina. Mas como já vimos, a população não estava devidamente vacinada e alguns irão sofrer com os efeitos da doença. Essa situação é importante para demonstrar os benefícios de um sistema de vacinação bem aplicado. Então, vacine-se! É a nossa única prevenção.


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