Quanto tempo dura a imunidade contra a COVID-19?

É possível pegar o coronavírus mais de uma vez?

Você provavelmente deve ter visto notícias de pessoas que se recuperaram da COVID-19 e depois de semanas voltaram a testar positivo para a presença do novo coronavírus. Em meados de abril, as autoridades de saúde da Coréia do Sul disseram que pouco mais de 2% dos pacientes recuperados do país estavam novamente em isolamento após testes positivos. 

Será que essas pessoas pegaram o novo coronavírus pela segunda vez? Então as pessoas que adquirem a COVID-19 não ficam imunes? O sistema imunológico está no centro de algumas das questões mais importantes sobre o coronavírus. O problema é que sabemos ainda muito pouco sobre a relação entre os dois.

Mas então, quanto tempo dura a imunidade contra a COVID-19? Pra gente responder, precisamos entender como funciona o nosso sistema imunológico.

Cell_Immune

O sistema imunológico, ou sistema imune, é basicamente a defesa do nosso corpo contra infecções, e ela ocorre em duas etapas:

A primeira, chamada de imunidade inata, é a defesa inicial, e consiste em uma reação imediata e geral contra determinado patógeno, como vírus e bactérias. Essa defesa inicial pode ser uma barreira física, como pele e pelos que ajudam a impedir que os patógenos entrem no corpo. Mas também há a atuação de células do sistema imune que circulam no corpo e atacam qualquer agente estranho que encontrarem. Uma delas, por exemplo, são os macrófagos, que ingerem e eliminam os patógenos e as células infectadas, enquanto liberam substâncias químicas que recrutam outras células auxiliares mais específicas para combater a infecção.

A chegada dessas células auxiliares representa a segunda etapa da resposta imune, conhecida como imunidade adaptativa, que, como o próprio nome sugere, é uma reação que se adapta ao agressor que o corpo está enfrentando, sendo, portanto, mais específica. De forma muito simples, nesta etapa várias células chamadas linfócitos chegam para regular essa resposta imune e criar anticorpos específicos para destruir os patógenos de forma mais eficiente. Quando seu corpo vê um novo invasor, como o caso do novo coronavírus (ou de um novo vírus), leva tempo para os linfócitos se desenvolverem, reproduzirem e criarem anticorpos. E depois que você melhora da infecção ou doença, a maioria dos linfócitos morre, mas alguns, chamados de linfócitos de memória, podem permanecer no corpo. Eles ficam escondidos em órgãos como os linfonodos e o baço, onde ficam se replicando, e continuam secretando uma quantidade muita pequena dos anticorpos específicos contra os patógenos. Cada tipo de anticorpo funciona contra um tipo de patógeno e são como patrulheiros do nosso corpo. Se voltarem a ver o antigo inimigo, eles se ligam a ele, rapidamente o inativam e avisam para outras células que ficam patrulhando o corpo de que “ei, esse cara já entrou em contato com a gente antes! Avisa os linfócitos lá nos linfonodos que é pra produzir uma resposta rápida”. Os linfócitos, a partir de uma série de mediadores químicos que disparam essa resposta, são novamente ativados. Como já aprenderam a agir contra o patógeno, eles irão aumentar a quantidade de anticorpos liberados e orquestrar uma resposta imune específica mais rapidamente. Quando isso acontece, é dito que alguém tem imunidade ativa. Em muitos casos essa imunidade dura a vida toda, como o caso do sarampo ou rubéola. Mas em outros casos, essa proteção dura apenas poucos meses ou anos, como é o caso dos resfriados comuns. Por isso, a grande questão que os pesquisadores enfrentam agora é: onde se encaixa o novo coronavírus?

O novo coronavírus não existe há tempo suficiente para sabermos quanto tempo dura a imunidade, mas existem outros seis coronavírus humanos que podem nos dar uma pista. Estudos anteriores de coronavírus menos perigosos que causam resfriados comuns sugerem que a proteção tem vida curta: os níveis de anticorpos caem significativamente em poucos meses. E é por isso que podemos pegá-los todos os anos, como se fosse um vírus novo. Felizmente, nem todos os coronavírus criam uma imunidade tão ineficaz. O novo coronavírus que causa o COVID-19 parece ser mais parecido com o vírus que causou a SARS em 2002, com cerca de 80% de homologia. E em um estudo de 2007 com 176 pessoas que sobreviveram à infecção por SARS, os níveis de proteção dos anticorpos duraram em média cerca de dois anos. Obviamente, apenas porque o vírus da SARS é semelhante ao que causa o COVID-19, não significa que a imunidade funcione da mesma maneira nas duas doenças. Observar a SARS é uma maneira de formar hipóteses sobre o COVID-19, mas, no final, não há realmente nenhum atalho para descobrir se nossa imunidade é duradoura a esse vírus.

O que os estudos vem nos mostrando em relação ao novo coronavírus é que a maioria das pessoas sintomáticas que se recuperaram da COVID-19 apresentaram anticorpos contra o vírus.

Por exemplo, um estudo realizado em Nova York com 569 pacientes que já tiveram comprovadamente a COVID-19 em diferentes níveis,  mostrou que 99,5% dos infectados foram capazes de produzir anticorpos.

Capturar

Mas se as pessoas adquirem imunidade após a infecção, por que tivemos relatos de pessoas testando positivo novamente semanas depois de se recuperarem e de terem testado negativo? Pelo que os pesquisadores descobriram até o momento, a positividade dos testes se deve ao processo de cicatrização das vias aéreas, que acabam eliminando pequenos fragmentos do material genético do vírus morto presente nas células do pulmão. Isso acontece com outras doenças, como por exemplo o sarampo, em que o material genético do vírus causador pode aparecer nos testes até seis meses após o desaparecimento da doença. Então, os testes não estariam detectando o vírus ativo, o que não caracterizaria um processo de reinfecção nem de reativação. 

Apesar desses resultados animadores, é importante deixar claro que nós ainda não sabemos quanto tempo os anticorpos contra o coronavírus duram na circulação, quanto tempo os linfócitos de memória contra coronavírus sobrevivem nos linfonodos e nem se o vírus vai evoluir mecanismos para escapar do sistema imune em novas infecções. E é sobre essa estratégia evolutiva de escapar do sistema imune que eu queria que você prestasse bastante atenção. Essa evolução de escape das nossas defesas se dá de várias maneiras, sendo uma delas, por meio de mutações no código genético que acabam alterando aos poucos a estrutura do vírus até o ponto em que o nosso sistema imune, que já orquestrou uma resposta contra aquela estrutura original, não consegue mais reconhecer a nova estrutura viral mutada e é como se um organismo completamente novo nos infectasse. Um estudo ainda não revisado já detectou 14 mutações na parte do genoma do coronavírus que controla a sua proteína de superfície, chamada Proteína Spike. É essa proteína que reconhece um receptor nas nossas células e faz o vírus se ligar a elas, permitindo a sua entrada na célula. Uma dessas mutações fez com que a proteína spike do vírus fosse mais eficiente em reconhecer o receptor das células humanas e, consequentemente, facilitou a entrada do vírus. Os pesquisadores discutem que essa mutação começou a aparecer no início de fevereiro, na Europa e pode ter sido responsável por uma maior transmissibilidade do vírus a partir de então. Do ponto de vista do sistema imune, nós não sabemos se essa mutação pode tornar o vírus diferente o suficiente pra ser necessário uma nova resposta imune, o que faria com que pessoas que já haviam pegado o coronavírus sem a mutação, se infectem novamente e tenham que iniciar toda a resposta imune de novo. Nós simplesmente ainda não sabemos. Além disso, é importante ressaltar que quanto mais o vírus se espalha, mais cópias ele faz e maiores são as chances de novas mutações acontecerem. Esse é um mecanismo natural que nós já conhecemos no vírus Influenza, causador da gripe, e que nos obriga a produzir todo ano uma vacina nova, que considera as mutações do ano anterior e é capaz de proteger também contra os vírus mutados. De novo, nós não sabemos se com esse número elevado de casos, o coronavírus vai desenvolver mutações que o façam escapar do sistema imune. Quanto a esses mecanismos de escape, eu linkei um artigo muito legal explicando todos os outros mecanismos que os organismos evoluíram pra escapar do nosso sistema imune, para quem quiser saber mais beleza? Está aqui.

Bom, enquanto não soubermos se a imunidade contra o coronavírus é duradoura, não podemos simplesmente liberar quem já pegou a doença pra circular. Essa é a ideia por trás dos passaportes de imunidade, que permitiria às pessoas que já produziram anticorpos contra o vírus circularem e trabalharem livremente, sem o risco de se infectar e infectar outras pessoas. A imunidade contra o coronavírus é um assunto complexo, que está sendo intensivamente estudado por pesquisadores em todo o mundo não só para acelerar a liberação da economia, mas também para permitir o desenvolvimento de uma vacina eficaz e acessível a todos. Mas a resposta para quanto tempo dura a imunidade contra o coronavírus só virá com o tempo. Enquanto isso, fique em casa. Um abraço e até a próxima!

Referências:

[1] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2271881/

[2] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2851497/pdf/07-0576_finalD.pdf

[3] https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.03.24.20042382v1

[4] https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.30.20085613v1

[5] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52525236

[6] https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.04.29.069054v1

[7] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK27176/

 


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