Como a indústria farmacêutica ganha dinheiro?

Não é muito fácil fazer uma propaganda para um novo medicamento, nem é garantia de retorno investir em uma embalagem sofisticada, com cápsulas com design inovador. “Pessoal, hoje eu vou fazer um unboxing do novo Neocilina Pro. Ele entrega pra você que sofre de chikungunya crônica um combo de funcionalidades, como redução da dor nas articulações, febre e dor de cabeça tudo isso em 12 comprimidos revestidos com uma resina MaxPro que facilita na hora de engolir e olha que embalagem! A Science Inc realmente pensou na experiência do usuário!” Simplesmente não dá né.

Por isso, a indústria farmacêutica desenvolveu maneiras eficientes de lucrar ao máximo a partir das vendas de novos medicamentos, mesmo que o custo com pesquisa e desenvolvimento sejam extremamente elevados. E no vídeo sobre o processo de pesquisa de medicamentos eu levantei a hashtag #qualosegredo justamente pra te contar como, como a indústria farmacêutica ganha dinheiro com investimentos tão arriscados em pesquisa de medicamentos que podem nunca chegar nas prateleiras? Seja bem-vindo ao Olá, Ciência!

Pessoal, antes de começar o vídeo, queria te pedir para parar um pouquinho e seguir a gente lá no Instagram. Nós temos a meta de chegar a 10.000 seguidores ainda esse ano, porque isso vai nos permitir fazer stories e colocar links que vão direcionar o público aqui pro YouTube quando a gente lançar vídeos novos. Fora que lá no Instagram a gente solta um monte de conteúdo praticamente diário sobre saúde e ciência que não necessariamente viram vídeos. Então dá aquela força pra gente lá no Instagram, se inscreve no canal clica no gostei aí embaixo e bora pro vídeo.

Na média, leva de 10 a 15 anos para uma pesquisa sobre medicamentos finalmente colocar uma substância no mercado que seja segura e eficaz para humanos. E não basta apenas descobrir a substância, é necessário um longo processo de pesquisa para descobrir os efeitos colaterais, qual a dose ideal, que tipo de interações medicamentosas essa substância pode ter e também um desenvolvimento para transformar essa substância química, o princípio ativo, em um produto capaz de ser vendido e chegar até você que está precisando do remédio.

E a maneira que a indústria farmacêutica desenvolveu para explorar ao máximo a substância desenvolvida e extrair o seu valor no mercado é por meio da propriedade intelectual. 

Propriedade intelectual é tudo aquilo que é fruto do intelecto humano e que pertence a você, ou seja é de sua propriedade. Ou seja, é tudo aquilo que você produziu e, por direito, você pode ser chamado de autor ou titular daquela criação. Obras literárias, descobertas científicas, marcas e invenções são protegidas pelos direitos de propriedade intelectual. Ela permite transformar o conhecimento em um bem privado. E uma dessas formas de proteção intelectual são as patentes.

Uma patente é um direito temporário de monopólio conferido a um inventor que criou um produto ou processo a partir da sua capacidade intelectual que possui novidade perante ao que já existe e que tem alguma aplicação industrial. Parece complicado, mas não é. Imagine o seguinte problema da sociedade: nós temos que evitar tocar nos botões dos elevadores para subir ou descer. Alguém pode inventar um sensor que identifica quem é a pessoa e já leva ela pro andar que ela mora ou para a portaria, sem que ela precise tocar em nada. Isso é uma invenção nova e que tem aplicação industrial e que, portanto, pode ser patenteada. O titular da patente, que pode ser uma pessoa física ou uma entidade, como uma empresa, pode explorar comercialmente aquela invenção por 20 anos sem que a concorrência possa copiar ou comercializar algo que faça a mesma coisa. E isso é a essência do uso da patente como um instrumento de vantagem competitiva para qualquer empresa.

Bom voltando ao exemplo da indústria farmacêutica, as patentes se tornam proteções essenciais para que seja possível recuperar o valor investido na pesquisa e no desenvolvimento de novas medicações. A patente de um medicamento permitirá à empresa obter exclusividade na comercialização de uma substância capaz de ser utilizada no tratamento de doenças e muitas vezes, doenças que não possuem tratamento prévio. Se a patente não existisse, simplesmente não seria viável para a empresa farmacêutica desenvolver medicamentos porque no momento em que a substância fosse aprovada para ser introduzida no mercado, centenas de outras empresas que não gastaram um centavo no desenvolvimento, copiariam a substância lançando medicamentos similares a um preço muito reduzido, quebrando a empresa que gastou bilhões no desenvolvimento. Por isso, as patentes são instrumentos que, se utilizados com inteligência, permitem às empresas desenvolverem medicamentos e obterem lucros a partir de novas substâncias inseridas no mercado.

Linha do tempo de uma patente de medicamento

Agora vejamos essa imagem. Ela representa como as indústrias farmacêuticas se aproveitam das patentes para obterem lucros. [1] Aqui em cima, nós temos a linha do tempo da patente e aqui embaixo nós temos todo o processo de desenvolvimento de medicamentos que nós explicamos em um vídeo anterior. Durante o desenvolvimento, muitas vezes, as empresas não divulgam os dados das pesquisas, porque isso é conhecimento e vantagem competitiva. Quando o suposto medicamento já passou pela fase pré-clínica com estudos em células e animais e já se mostrou seguro em seres humanos na fase 1 de testes clínicos, normalmente as empresas entram com um pedido de patente. Somente após o pedido de patente que as empresas divulgam detalhes sobre como funciona a substância porque lembrem-se: para patentear, é preciso que a invenção seja uma novidade. Se ela já tiver publicado artigos sobre o seu funcionamento para o tratamento da doença, aquilo não pode ser mais patenteado. Por isso, elas guardam em segredo muito sobre o funcionamento das substâncias até depositarem o pedido de patente. Esse pedido inicia o processo de concessão da patente, que pode durar anos. No Brasil, em média para que uma patente seja concedida demora cerca de 10-15 anos. Esse exemplo que eu trouxe é de um país desenvolvido em que o processo de concessão da patente dura cerca de 5 anos.

Beleza, então vamos imaginar que seja concedida a patente para aquela substância após cinco anos do pedido. Então antes da substância ter sido aprovada, a empresa já adquire a concessão do órgão regulador de patentes de que ela é a única que pode comercializar aquela substância por até 20 anos após o pedido. Então ela já perdeu uns bons anos de comercialização do medicamento enquanto a patente não havia sido aprovada. Mas para empresas farmacêuticas isso não tem muito problema, porque enquanto a agência reguladora estava analisando o pedido de patente, a empresa está assumindo o risco do desenvolvimento, na fase 3 de testes clínicos, torcendo e fazendo de tudo para a droga ser passar nos testes e finalmente ser aprovada pela agência sanitária, porque se não for… foi um dinheiro perdido. 

Empresas farmacêuticas são como investidores de alto risco. Elas têm um portfólio de substâncias que várias dão errado, mas se uma for aprovada, ela paga o custo de todas as outras e a essência desse lucro absurdo está na exclusividade de comercialização gerada pelas patentes.

Vamos voltar ao nosso exemplo aqui, que representa um caso excepcional de sucesso. O nosso medicamento ganhou aprovação 12 anos após o pedido de patente e 22 anos após o início das pesquisas. A partir daí, a empresa tem somente até o fim da proteção da patente para explorar comercialmente o medicamento. Ou seja, em torno de 8 anos, no melhor dos cenários. Nesses 8 anos, ela coloca os preços lá em cima, porque é a única forma dela retornar todo o investimento e ainda obter lucro em cima das pesquisas que foram realizadas e de todas as outras substâncias que ela teve de descartar antes de chegar nessa que deu certo. 

Em até cinco anos a partir da data de aprovação do medicamento, a empresa é obrigada a divulgar todos os dados sobre o funcionamento da droga e sobre os testes clínicos realizados para todo o mercado. Antes disso, somente a empresa e a agência sanitária possuíam esses dados completos. A partir daí, outras empresas começam a estudar como funciona a substância para então, no dia que em que a proteção patentária cair, aparecerem medicamentos genéricos, custando em média, 10 vezes menos do que o medicamento de referência.

Ganho de empresas farmacêuticas com venda de medicamentos

O faturamento da gigante farmacêutica Pfizer caiu significativamente quando a patente do Viagra venceu. Ela foi depositada em 1992 e duraria até 2012 nos Estados Unidos. No Brasil, a patente foi depositada em 1994 e um dia depois de expirar, em 2014, já haviam laboratórios farmacêuticos com uma droga similar no mercado. 

Os medicamentos genéricos que conhecemos, são nada mais nada menos que medicamentos que foram desenvolvidos por todo aquele processo e que já tiveram suas patentes vencidas. Dipirona, genérico da Novalgina, Captopril, genérico do Capoten, Acido acetilsalicilico genérico da Aspirina, todos já foram patenteados e agora estão disponíveis para o público a um preço bem reduzido.

E é assim que as empresas farmacêuticas ganham dinheiro. Existe um debate grande sobre se a patente exerce o seu papel econômico sem prejudicar a sociedade que, em teoria, deveria ter acesso à saúde como um direito básico de todo ser humano. A questão é que sem patentes, não haveria estímulo para nenhuma empresa farmacêutica explorar nenhum desenvolvimento de medicamento, pois no dia seguinte ao lançamento, vários laboratórios já estariam competindo por preço, o que inviabilizaria toda a pesquisa por drogas. Então nesse ponto, as patentes exercem o papel social de serem o instrumento que permite às empresas colocarem esses produtos no mercado. Sob esse olhar, a indústria farmacêutica é vilã, colocando os seus produtos patenteados no mercado? 

Agora pensa comigo. Principalmente para doenças negligenciadas ou doenças raras como certos tipos de câncer ou doenças genéticas essa conta não fecha muito bem, porque como são doenças que não acometem a maioria da população, elas consequentemente não geram lucro para as empresas pela quantidade vendida. Então, as empresas acabam colocando valores exorbitantes nesses medicamentos, para recuperar o investimento. É por isso que às vezes ouvimos falar de tratamentos que custam 100 mil dólares, ou remédios que custam 10.000 reais a dose. É a única forma, no modelo de economia que nós vivemos hoje que essas empresas têm de continuar produzindo e operando com lucro. E não basta apenas falar que elas deveriam se abster do lucro para tratar essas doenças negligenciadas porque não é assim que as coisas funcionam. Se não desse lucro, ninguém iria produzir.

E aí que entra o papel dos governos, para corrigir essa falha do mercado farmacêutico. Em países como o Brasil, que tem um sistema único de saúde, o governo é o responsável por prover saúde para todos, muitas vezes arcando com os custos milionários de trazer esse remédio para uma pequena parcela da população que não pode bancar o tratamento e disponibilizá-lo gratuitamente. Por isso que muitas vezes vemos famílias entrando na justiça para obter o tratamento de algum ente querido que tem uma doença rara, porque os tratamentos são milionários e só com o aval da justiça e o governo arcando com os custos é que seria possível tratar essas pessoas.

Bom pessoal, eu espero que vocês tenham gostado desse tipo de conteúdo e que eu tenha aberto a mente de vocês para pensar que nem tudo é tão simples quanto “a indústria farmacêutica esconde a cura das doenças porque o tratamento dá mais lucro” ou “a indústria farmacêutica é mercenária”. Simplesmente se não fosse assim, nos moldes de economia que temos hoje não teríamos remédios. Eu conheço algumas histórias de desenvolvimento de medicamentos para o câncer que passaram por todo esse processo e hoje são disponibilizados gratuitamente pelo SUS, porque sim, a empresa farmacêutica patenteou o remédio, desenvolveu o medicamento, obteve seus lucros e o governo brasileiro disponibilizou para a população. Se vocês quiserem que eu conte uma dessas histórias, a do Gleevec que trata um tipo raro de câncer da medula óssea nessa série de vídeos sobre a indústria farmacêutica, mais uma vez, comenta aqui embaixo com a hashtag #contamais que eu faço um vídeo sobre isso, beleza? 

Por isso, pessoal, nós no Olá Ciência sempre prezamos pelo investimento em ciência, para que o nosso país tenha uma indústria de biotecnologia cada vez mais forte e capaz de produzir os nossos próprios medicamentos, fazer as nossas próprias pesquisas e quem sabe um dia, exportar nosso conhecimento na forma de propriedade intelectual e patentes para o mundo. Clica no gostei, se inscreva no canal, um grande abraço e até a próxima.,

Referências:

[1] http://www.rroij.com/open-access/patents–an-important-tool-for-pharmaceutical-industry-.php?aid=34351

 


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