Quando teremos uma vacina para o coronavírus?

Vacina, uma palavra que significa, Vaca. Isso porque a primeira vacina da era moderna veio literalmente das tetas de uma vaca. Em 1796, todo o planeta era assolado pela varíola, uma doença infecciosa que causava inicialmente febre e vômitos, mas que progredia para erupções na pele com uma mortalidade de 30%. Apesar de sua origem ser desconhecida, com registros de múmias egípcias que pareciam ter tido varíola há mais de 2000 anos, foi só em 1796 que nós tivemos o primeiro sinal de que essa terrível doença… poderia ser… controlada. O médico inglês Edward Jenner observou que pessoas que ordenhavam vacas apresentavam as erupções na pele das mãos, mas nunca desenvolviam a varíola por todo o corpo e que as vacas também apresentavam essas erupções nas tetas, uma espécie de varíola bovina. Ele supôs que a versão da doença das vacas não era capaz de causar doença grave em seres humanos, então, inoculou o líquido que saía das lesões das mãos de uma ordenhadeira em um menino, chamado James. James além de não ficar doente pela inoculação inicial, também não contraiu a varíola depois que o médico, doido por sinal, pegou amostra de um paciente com varíola humana e inoculou no pobre James. James estava imune à varíola e Edward Jennes havia descoberto a vacina.

E cá estamos nós em 2020, tentando encontrar uma vacina para o coronavírus. E pode apostar que vai ter um monte de Edward Jennes anunciando que descobriu a vacina querendo inocular o vírus atenuado ou partes do vírus em cobaias pelo mundo. Recentemente começou a circular uma notícia de uma vacina que se mostrou eficaz nos primeiros testes clínicos nos Estados Unidos [1] https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/05/18/vacina-contra-covid-19-da-moderna-pode-estar-disponivel-em-janeiro-de-2021. (Então, problema resolvido! Coronavírus não vai mais ser um empecilho à nossa circulação e poderemos voltar à vida normal! Foi até mais fácil que imaginávamos!) Bem pessoal, como o(a) XXXX, que decidiu se tornar membro do canal, sabe porque acompanhou o nosso vídeo sobre o processo de produção de um medicamento ou vacina, não é bem assim… São muitas etapas e um longo caminho para chegarmos a uma vacina. Mas o que é uma vacina?

Vacina, também conhecida como o único caminho seguro para o retorno dos países a uma situação de relativa normalidade perante a COVID-19… são preparações biológicas administradas com o objetivo de induzir imunidade a determinada doença. Vamos explicar melhor! As vacinas são constituídas por organismos previamente atenuados ou mortos, ou por fragmentos desses patógenos. Assim, quando injetamos a vacina, ela simula como se o organismo causador da doença tivesse entrado no organismo para que o nosso corpo comece a produzir uma resposta imunológica contra ele, e para que possamos produzir anticorpos e imunidade de memória mesmo sem termos contraído a doença. Dessa forma, quando uma pessoa que já adquiriu imunidade por meio da vacina for infectada realmente pelo patógeno, o organismo já saberá como reagir, e irá produzir uma resposta à infecção mais rápida e eficaz, impedindo o desenvolvimento da doença. 

Existem diversas estratégias para se desenvolver uma vacina, e pesquisadores do mundo todo estão testando diferentes métodos para que se consiga chegar a uma vacina para a COVID-19 que seja segura e eficaz no menor tempo possível [2] https://www.nature.com/articles/d41586-020-01221-y. Várias etapas de desenvolvimento e teste das vacinas, que são normalmente executados em sequência, estão sendo executados em paralelo, simultaneamente [3] https://www.bcg.com/publications/2020/covid-vaccines-timelines-implications.aspx. Por exemplo, normalmente os testes da fase 1 de testes clínicos são finalizados, analisados e enviados para os órgãos reguladores, e se tiverem obtido resultados satisfatórios quanto à segurança da vacina em um pequeno grupo de pessoas, aí sim a empresa inicia a segunda fase de testes clínicos. O que está acontecendo agora na corrida pela vacina da COVID é que essas etapas estão sendo realizadas ao mesmo tempo, antes de se saber todos os detalhes sobre a segurança de uma vacina na fase 1, apenas com os resultados preliminares promissores as empresas já estão recebendo o aval dos órgãos reguladores para se iniciar a próxima etapa. Outro exemplo é a vacina da empresa Moderna, a que eu citei no início do vídeo, ela não finalizou os testes em animais e já começou os testes de fase 1 em voluntários humanos, com previsão de já iniciar a fase 2 dentro de apenas alguns meses [4] https://www.gavi.org/vaccineswork/covid-19-vaccine-race. Isso é um risco financeiro gigantesco para as empresas de biotecnologia, porque quantos menos etapas forem respeitadas, maior a chance de erro. Mas sem dúvida esse processo reduz drasticamente o tempo necessário para que a vacina possa estar disponível. E esses estudos são importantíssimos porque as vacinas contra doenças infecciosas normalmente apresentam 10% de sucesso. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (https://www.who.int/who-documents-detail/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines), atualmente existem cerca de 120 potenciais vacinas sendo desenvolvidas no mundo inteiro, e 8 delas já estão em fase de testes clínicos, ou seja, sendo testadas em humanos. E nós vamos falar agora um pouco mais sobre essas vacinas! 

MAPA →  https://www.gavi.org/vaccineswork/covid-19-vaccine-race

A estratégia vacinal mais antiga e que é bastante utilizada nas vacinas atuais é a utilização do próprio vírus na vacina, mas após ele ter sido enfraquecido ou inativado em laboratório, como é feito nas vacinas contra o sarampo e a poliomielite. O desenvolvimento desse tipo de vacina requer muitos testes de segurança, para garantir que realmente o vírus está enfraquecido e não é capaz de causar doença, o que acaba aumentando o tempo de desenvolvimento da vacina. Porém existem 3 candidatas que já estão em teste clínico na China utilizando o novo coronavírus inativado.

Outra estratégia é a utilização de vetores virais. Nesse caso, um vírus já conhecido, como por exemplo o adenovírus, que causa resfriados, é geneticamente modificado em laboratório para carregar um fragmento do material genético do novo coronavírus e então ser capaz de produzir proteínas do novo coronavírus no organismo. Por ser geneticamente modificado, o vírus que servirá como vetor estará enfraquecido, não podendo causar doença. Essas proteínas do novo coronavírus produzidas irão estimular o sistema imunológico, sem precisar desenvolver a doença. Duas vacinas utilizando essa estratégia estão sendo testadas em humanos, uma na Inglaterra e outra na China. E aqui no Brasil, na UFMG, também estamos em fase inicial de pesquisas de uma vacina utilizando adenovírus como vetor. Ah! E uma curiosidade sobre essa estratégia vacinal utilizando vetores, é que ela foi utilizada para a vacina do Ebola aprovada em 2019, que foi a vacina que demorou menos tempo para ser desenvolvida no mundo até hoje: cerca de 4 anos!

Uma outra estratégia para a vacina é a utilização de proteínas do vírus produzidas em laboratório que serão reconhecidas pelo sistema imune. Grande parte dos testes pré-clínicos para vacina contra COVID estão utilizando essa metodologia, e estudos clínicos iniciarão em breve na Austrália e nos Estados Unidos. 

E por fim, uma estratégia bem inovadora é a utilização direta de fragmentos do material genético do vírus na vacina. O objetivo dessa estratégia é que o fragmento do DNA ou do RNA seja internalizado pela célula do organismo humano e passe a produzir alguma proteína viral, estimulando o sistema imune a produzir anticorpos. Essas vacinas são mais seguras, relativamente mais fáceis de serem desenvolvidas e mais econômicas, mas nenhuma vacina utilizando essa tecnologia foi aprovada para uso até hoje. Para a COVID-19, três empresas estão realizando testes clínicos usando essa metodologia, nos Estados Unidos e na Alemanha.

Um exemplo de vacina de RNA é a que está sendo desenvolvida pela empresa Moderna. Ela foi a primeira do mundo a anunciar os dados iniciais dos testes da vacina feitos em humanos (https://www.modernatx.com/modernas-work-potential-vaccine-against-covid-19). Imediatamente os resultados foram interpretados como positivos, notícias de que a pandemia iria acabar começaram a circular e as ações da empresa dispararam. Mas será que essa dose de otimismo foi exagerada?

Os pequenos fragmentos de RNA do coronavírus que compõem a vacina são responsáveis pela produção da proteína Spike do vírus, uma proteína da superfície responsável pela entrada do vírus nas células. Assim, depois da administração da vacina, o próprio organismo será capaz de produzir essas proteínas virais, e começará uma resposta imunológica contra elas. Agora os cientistas estão pesquisando como essa vacina funciona no organismo, se ela é bem tolerada e segura, se causa efeitos adversos, e se ela realmente funciona. Nos estudos realizados em camundongos, a vacina impediu a replicação do vírus nos pulmões, de acordo com os dados divulgados pela empresa, que vale ressaltar, não foram publicados em artigos científicos. A primeira fase de testes clínicos em humanos começou em abril, e inicialmente se mostrou segura. Os pesquisadores também observaram que 8 pessoas vacinadas desenvolveram anticorpos capazes de neutralizar o vírus, em níveis similares ou até superiores aos observados em pessoas que adquiriram a Covid-19, indicando que a vacina provoca uma resposta imune similar à infecção natural, podendo ser eficaz (https://investors.modernatx.com/node/8986/pdf). Mas temos que interpretar esses resultados com muita cautela, pessoal, porque primeiro eles são referentes a 8 pessoas apenas, o que é uma quantidade muito pequena pra afirmar qualquer efetividade, e segundo, não se sabe por quanto tempo dura essa imunidade induzida pela vacina. E essa dúvida vale para todas as vacinas que estão sendo testadas atualmente, não apenas para essa da Moderna. 

Então, como vamos saber se as vacinas são capazes de nos proteger? Só com o tempo…. Para saber se uma vacina funciona, os milhares de voluntários que receberam a vacina ou um placebo são liberados pra terem suas vidas normais, podendo ser naturalmente expostos ao vírus. Depois de um tempo, eles sao novamente recrutados para saber se tiveram a doença. 

Considerando tudo isso, de acordo com os pesquisadores, uma vacina eficaz contra a COVID-19 provavelmente só estará disponível, no melhor dos cenários, daqui a 12 a 18 meses. Mas Pode ser que aconteça uma liberação antecipada para uso emergencial em grupos mais expostos ao risco de contaminação, como profissionais de saúde. Talvez essas vacinas iniciais nem tenham alta eficácia pra justificar a sua adoção na população geral, mas já seriam alguma proteção pros profissionais de saúde que estão se expondo diariamente ao vírus. Algumas indústrias de biotecnologia dizem que esse uso emergencial da vacina pode ocorrer ainda este ano, talvez em setembro, se os testes clínicos iniciais forem bem sucedidos. Mas como já falamos antes, quanto mais etapas nesse desenvolvimento forem eliminadas ou realizadas de forma apressada, maior o risco de uma vacina com uma efetividade reduzida. Mas isso são cenas para os próximos capítulos não é mesmo? 

Além disso, depois que uma vacina para COVID for validada e aprovada, teremos um novo desafio: a produção das vacinas em larga escala, para nada mais nada menos que 7 bilhões de pessoas no mundo. Isso considerando que seria apenas 1 dose. Imagine a infraestrutura necessária para produzir. Você acha que a gente tá preparado para isso? Cada tipo de vacina precisa de um cuidado especial de estocagem e armazenamento que também deve ser pensado. As vacinas de RNA, como as da empresa Moderna por exemplo, precisam ser armazenadas resfriadas até instantes antes de serem aplicadas. Como essas vacinas serão levadas até o interior do Amazonas? Além disso, ninguém está falando na indústria de vidrinhos de vacina e seringas, que hoje produz material suficiente pra 6 bilhões de doses por ano pras vacinas que já existem. Ei pessoal, o chefe mandou a gente fazer um esforço pra atingir a meta desse ano, mas quando atingirmos a gente vai dobrar a meta!   https://www.bcg.com/publications/2020/covid-vaccines-timelines-implications.aspx

https://www.nature.com/articles/d41586-020-01063-8

Bom pessoal, vocês viram que é um universo de informações sobre vacinas que apenas começou a circular pela mídia e pelas redes sociais. Muitas informações são novas, vem quebradas, e a gente acaba se perdendo em meio a tantas opções de onde se informar. Aqui no Olá, Ciência vamos continuar produzindo conteúdo de qualidade, como esse aqui que explica como funciona o tal teste PCR que todo mundo tá falando que está faltando ou esse vídeo relacionado. Enquanto você escolhe aí qual vídeo vc vai ver, eu fico aqui me perguntando será que dessa vez os anti-vacinas vão querer ser vacinados contra a COVID-19? 

[1] https://www.who.int/who-documents-detail/draft-landscape-of-covid-19-candidate-vaccines

Outras referências utilizadas:

Vacina se mostra eficaz em testes clínicos nos EUA: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/05/18/vacina-contra-covid-19-da-moderna-pode-estar-disponivel-em-janeiro-de-2021

A corrida por uma vacina do coronavírus: https://www.gavi.org/vaccineswork/covid-19-vaccine-race

Site da empresa Moderna Therapeutics: https://www.modernatx.com/modernas-work-potential-vaccine-against-covid-19

Estratégias para o desenvolvimento de vacinas: https://www.nature.com/articles/d41586-020-01221-y

Como o mundo está acelerando o desenvolvimento da vacina da COVID-19: https://www.bcg.com/publications/2020/covid-vaccines-timelines-implications.aspx




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