Candida auris: O superfungo que pode causar uma nova pandemia

Não é de hoje que falamos aqui que os microorganismos super resistentes aos nossos mais potentes antibióticos são uma grande ameaça à nossa saúde, afinal, se não há tratamento, só resta ao paciente torcer para o seu próprio corpo conseguir conter essa infecção. Quando a gente ouve falar de resistência a antibióticos, a primeira coisa que vem na nossa mente é a palavra superbactéria. E com o mundo assolado pelo coronavírus, é um momento crítico para superbactérias e outros organismos resistentes se proliferarem, já que todos os esforços estão voltados para a produção de uma vacina ou remédio contra a COVID-19.

As principais organizações que coordenam os esforços de pesquisa no mundo já vêm há alguns anos dando extrema relevância às superbactérias. Mas algo que muita gente nos hospitais e nos principais laboratórios de pesquisa do mundo não está dando  a devida atenção é para um fungo, não uma bactéria, um fungo que foi descoberto em 2009 [1] no ouvido de um paciente em um hospital no Japão e que desde então está causando surtos em diversas instalações de saúde pelo mundo: a Candida auris! 

Quase idêntica à sua companheira Candida albicans, que causa candidíase em homens e mulheres, a Candida auris tem algumas características peculiares que mostram que ela é bem pior que a sua colega do gênero Candida. Seu surgimento, ou pelo menos, a sua descoberta como nova espécie, me lembrou muito o início do surto da doença do livro Guerra Mundial Z, que muita gente conhece o filme, mas o livro, cara, conta a história de como um paciente foi apresentando sintomas de uma estranha doença em um hospital na Coreia e aquilo começou a se espalhar pelas cidades. Enfim, é um ótimo livro que eu recomendo, pra quem quiser ler vou deixar um link na descrição.

A Candida auris é o primeiro fungo classificado como ameaça à saúde pública na história simplesmente porque a sua taxa de mortalidade em pessoas que adquirem o fungo é de 60% [2]. Ela tem a habilidade de rapidamente colonizar a pele, competindo com bactérias e outros fungos que já estavam ali, é altamente contagiosa e causa doença grave. A sua transmissão de pessoa para pessoa ainda não é bem entendida, mas os cientistas acreditam que por ela ser uma espécie que não coloniza o ser humano naturalmente, diferente da sua coleguinha Candida albicans que está presente na microbiota da pele, dos órgãos genitais e do intestino, a Candida auris é bem adaptada pra crescer rápido na pele das pessoas infectadas. E tem um agravante. Quando a gente estuda infecções hospitalares, que todo médico tem medo e tenta evitar porque normalmente elas acometem pessoas que estão acamadas, internadas, debilitadas, a principal bactéria que a gente estuda é a Pseudomonas aeruginosa que resiste até à água sanitária. Parece que a Candida auris também tem essa habilidade de sobreviver em superfícies, como o chão, mesas ou equipamentos médicos, como tubos de respiração, catéteres e isso faz dela uma grande ameaça de infecção hospitalar. Nos lugares onde esse fungo apareceu, 20% das amostras de sangue de pessoas com suspeita de infecção generalizada, já são de Candida auris, o que já supera a taxa de infecção da sua colega, Candida albicans [2].

A atenção dos cientistas que estudam fungos se voltou à Candida auris apenas recentemente. Considerando que ela já era conhecida desde 2009, foi só depois que ela começou a aparecer nos Estados Unidos, em meados de 2015 que as pesquisas e publicações sobre ela aumentaram. Eu montei esse gráfico a partir de dados do Pubmed que mostra a evolução das publicações de artigos com o tema Candida auris na história e a gente realmente percebe a explosão de interesse em estudar e publicar artigos sobre esse fungo nos últimos anos. 

E vale a pena ressaltar que antes de 2009 as publicações não eram sobre Candida auris especificamente porque ela nem tinha sido descrita ainda. Mas outra coisa que eu queria mostrar é a comparação entre as publicações sobre Candida auris e a sua colega mais conhecida, a Candida albicans. Será que estamos dando a devida atenção para a ameaça global que nos espreita ou continuamos na nossa zona de conforto fazendo pesquisas sobre um fungo cujo conhecimento já é consolidado? Onde estão os cientistas brasileiros que atuam na fronteira do conhecimento? Pessoal, ao mesmo tempo que a Candida auris é uma grande ameaça, ela é uma grande oportunidade de pesquisa, afinal até o CDC, que é a agência federal dos Estados Unidos de controle e prevenção de doenças está preocupada com a Candida auris por 3 motivos: 

1. Ela é multirresistente a drogas existentes para tratar Candida,

2. ela é difícil de ser identificada pelos métodos tradicionais de diagnóstico, sendo necessária preparação, conhecimento e tecnologia adequada, já que um diagnóstico mal feito pode significar a morte de um paciente e 

3. porque ela causa surtos em hospitais, em pacientes já debilitados [3].

Esse fungo é tão interessante do ponto de vista científico que os primeiros estudos que foram feitos mostrando porque nosso corpo tem tanta dificuldade em combater essa infecção mostraram resultados, no mínimo curiosos. Vejam essa foto. É uma imagem de microscópio de fluorescência na qual mostra em verde algumas células de defesa do nosso corpo, tentando combater o fungo. Em vermelho estão marcadas células de Candida albicans, que é a coleguinha tranquilona da malvada Candida auris, marcada aqui em azul. Vejam que as células de defesa verdes só estão atacando as células vermelhas da Candida albicans, sugerindo que na presença da Candida albicans, a Candida auris não é reconhecida! Essa descoberta é fantástica, porque mostra que nossas células provavelmente sabem que tem alguma coisa estranha ali, mas acabam atacando o fungo que faz parte da nossa microbiota natural ao invés de atacar o que causa doença severa [4]. Eu deixei esse trabalho incrível na descrição do vídeo para quem quiser ler, porque vale a pena… até o título dele é surreal: o fungo patogênico emergente Candida auris se esquiva do ataque de neutrófilos. 

De acordo com o próprio CDC, já foram notificados mais de 1000 casos nos Estados Unidos com taxa de mortalidade de cerca de 50% dos pacientes em 90 dias, sendo que a maioria deles já possuía outra doença ou era debilitado, o que no linguajar médico a gente chama de comorbidade [5][6]. Esses números são um alerta para profissionais de saúde e de laboratório do mundo todo para pesquisarem sobre esse microorganismo e se prepararem para o seu diagnóstico e tratamento. Na prática, esses alertas servem pra avisar o resto do mundo de “ei colega profissional de saúde, sabe esse caso aí de infecção que você não consegue diagnosticar o que é, vê se não é Candida auris, porque aqui o bicho tá pegando”

E quem normalmente desenvolve a infecção por Candida auris? A grande maioria são pacientes que passaram por múltiplas intervenções médicas, como cirurgias, foram entubados, tiveram que inserir catéteres, sondas, porque lembra que eu falei que a Candida auris consegue sobreviver na superfície de equipamentos médicos? Uma vez inseridos no corpo dos pacientes, a Candida migra desses biofilmes que se formaram nesses equipamentos que são literalmente capas que protegem o fungo contra a remoção, para os tecidos humanos e acaba se espalhando rapidamente para o sangue, causando um quadro de infecção bem grave que pode matar. 

Ainda não existe nenhum caso confirmado da infecção por Candida auris no Brasil e Anvisa já alertou os serviços de saúde sobre a possibilidade dele chegar aqui [7], mas como o fungo é de difícil diagnóstico, isso não quer dizer que ela já não tenha entrado no país. E nossos laboratórios não estão preparados para detectar fungos, com a mesma eficiência que detectamos bactérias e vírus. Experiência própria. Já trabalhei em laboratórios clínicos e são poucos os profissionais que são realmente treinados para identificar um fungo com precisão. E essa minha opinião é compartilhada por alguns especialistas como o infectologista Arnaldo Colombo, professor da Unifesp, em uma entrevista que ele deu à BBC Brasil sobre o fungo [8].

Mas e aí? O que podemos fazer? Prevenção é sempre a medida ideal para evitarmos que uma população vulnerável seja hospitalizada assim como prevenção é a melhor medida para combatermos o coronavírus, seja ficando em casa ou desenvolvendo uma vacina. Se você quer saber mais sobre como uma vacina pode ser desenvolvida ou quanto tempo a pandemia ainda vai durar, dá uma olhada nesses vídeos. Enquanto você escolhe, não esquece de se inscrever, clicar no sininho e compartilhar esse vídeo. Um grande abraço e até a próxima! 

[1] https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1348-0421.2008.00083.x

[2] https://journals.plos.org/plospathogens/article?id=10.1371/journal.ppat.1007638#ppat.1007638.ref003

[3] https://www.cdc.gov/fungal/candida-auris/index.html

[4] https://mbio.asm.org/content/9/4/e01403-18

[5] https://oglobo.globo.com/sociedade/vitima-do-fungo-letal-candida-auris-revela-impotencia-diante-da-infeccao-pior-possivel-23608834

[6]https://www.cdc.gov/fungal/candida-auris/tracking-c-auris.html

[7]http://portal.anvisa.gov.br/noticias/-/asset_publisher/FXrpx9qY7FbU/content/anvisa-orienta-servicos-de-saude-sobre-fungo-resistente/219201/pop_up?inheritRedirect=false

[8] https://www.bbc.com/portuguese/geral-47899482


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