Tudo sobre a Intolerância à Lactose

A lactose, principal açúcar do leite pode ser um pesadelo para quem tem intolerância. Imagine que você sempre foi uma pessoa que consumiu leite normalmente, mas de repente passou a observar que depois de tomar um copo de leite ou iogurtes, comer queijos e manteiga, sempre acaba o dia no banheiro com uma baita dor de barriga. Pode ser que você sofra de intolerância à lactose, uma condição presente em 5 de cada 10 brasileiros.

Intolerância à lactose é uma condição na qual a pessoa não é capaz de metabolizar o principal açúcar presente no leite e seus derivados, o que gera sintomas desconfortáveis como diarreia, dor de barriga e gases, que prejudicam muito a qualidade de vida.

Essa condição tá diretamente associada à diminuição dos níveis da enzima que degrada a lactose no intestino, chamada lactase. Mas por que algumas pessoas deixam de produzir essa enzima ao longo da vida? Sejam bem-vindos ao Olá, Ciência!

A lactose é produzida por todos os mamíferos quando os níveis de prolactina, um hormônio que estimula o desenvolvimento das mamas e produção do leite, aumenta no organismo. Isso significa que sim, homens que têm alguma desregulação hormonal com a prolactina vão produzir leite e, por consequência, a lactose. Mas o principal momento em que ela é produzida é durante a gestação e após o parto, quando o estímulo da prolactina é máximo nas mamas. O leite humano contém aproximadamente 70g de lactose para cada litro de leite, é como se a gente pegasse 1 caixinha dessas e até aqui fosse constituído de lactose. Isso é importante porque os recém-nascidos precisam de muita energia para crescerem e produzirem as moléculas que vão ajudá-los a desenvolverem as suas células e o seu sistema imune. Quando ingerida, a lactase quebra a lactose em dois carboidratos simples, a glicose e a galactose. A energia vem principalmente da glicose e os outros processos celulares são muito dependentes de galactose. A digestão completa da lactose é muito importante para os recém-nascidos, tanto que bebês que por questões genéticas não produzem lactase acabam tendo sérios problemas de desenvolvimento, caso essa condição não seja descoberta com rapidez e tratada.

A lactose é tão importante na vida dos bebês que um dos estímulos para o desmame, que é quando o recém-nascido para de ter interesse pelo leite materno, é justamente a diminuição dos níveis de lactose no leite da mãe e, ao mesmo tempo, a diminuição dos níveis de lactase no intestino dos bebês. Então sim, a lactase é uma enzima cuja produção é diminuída ao longo da vida, principalmente nos primeiros dois anos, enquanto ainda somos bebês.

Isso significa que na maioria dos mamíferos, as crianças e adultos têm apenas 10% da enzima lactase que tinham quando eram recém-nascidos. Em pequenos animais como ratos e camundongos a produção da lactase aumenta quando eles se alimentam de leite, mas, infelizmente, em humanos o nosso corpo não tá nem aí pra quantidade de leite que a gente toma. Ele simplesmente não vai produzir mais lactase por causa disso.

Isso acaba com o mito de que tomar muito leite pode alterar os níveis de lactase. (Filmar bebendo leite da caixa). Tem gente que acha que tomar muito leite dispara a intolerância à lactose e outros que acham que quem toma muito leite nunca terá intolerância. A ve rdade é que nada disso importa. (Cena filmada na cozinha bebendo caixa de leite no bico).

 A intolerância à lactose está muito mais relacionada com o quanto de lactase o seu corpo se adaptou a produzir depois que você foi um recém-nascido do que com a quantidade de leite que você toma diariamente. 

Tá, mas se a quantidade de lactase diminui quando ficamos mais velhos, porque que algumas pessoas têm intolerância à lactose e outras não? Ah isso é bem interessante. 

Na segunda metade do século vinte, pesquisadores descobriram que a quantidade de lactase que será produzida na vida adulta é dependente da genética. Mas também descobriram que o gene que codifica a enzima lactase possui variantes pelo mundo. Essas pequenas mudanças genéticas controlam a quantidade de lactase que a pessoa produz.

A grande maioria dos seres humanos tem uma redução dos níveis de lactase depois que param de mamar, mas cerca de 25 a 30% da população mundial possui variantes genéticas que mantêm o gene da lactase funcionando por toda a vida. Essas pessoas são chamadas lactase persistentes. São pessoas que têm níveis de lactase muito próximos ou iguais aos níveis de quando eram recém-nascidas.

A distribuição das pessoas lactose persistentes é bem marcada no mundo, sendo que nos países nórdicos, na Nova Zelândia e no Níger, quase 100% da população, enquanto em outros países africanos quase toda a população apresenta deficiência de lactase. No Brasil, cerca de 50% da população apresenta algum grau de deficiência da enzima. A genética determina a quantidade de lactase que cada um de nós produz e isso tem muito a ver com o quanto o nosso gene da lactase é diferente do das pessoas que são lactase persistentes. Quanto mais diferentes os seus genes são dos genes dessas pessoas, mais intolerância à lactose você terá.

Mas que injusto! Por que só essa pequena população do mundo consegue tomar leite problemas? Os cientistas vêm estudando profundamente essa questão.

Duas hipóteses têm sido debatidas e são atualmente aceitas para explicar essa diferença. A primeira é a hipótese da coevolução dos genes e da cultura. Aqui a gente vai lembrar da seleção natural de Darwin que dizia que seres com vantagens competitivas em determinado ambiente prosperam enquanto os indivíduos menos adaptados ao ambiente morrem. Durante a transição do período Paleolítico para o Neolítico, o ser humano começou a praticar a pecuária e a criar gado e, claro, com o gado, começou a tomar leite! As populações que tinham uma forte cultura pastoral, ou seja, de criação de gado, acabaram selecionando indivíduos que possuíam resistência à lactose, porque o leite é um alimento de fácil obtenção e muito nutritivo. Aqueles indivíduos que não conseguiam obter nutrientes a partir do leite, acabavam ficando desnutridos e morrendo com poucos anos de vida. Assim, o gene que permitia a produção de lactase suficiente para a digestão da lactose na vida adulta foi sendo selecionado ao longo de milhares de anos. As populações da Nova Zelândia, dos países nórdicos e do Níger ainda possuem o gene da resistência à lactose praticamente intacto.

A segunda hipótese que também é aceita pelos cientistas é a hipótese da assimilação de cálcio. Sério se você ficou até aqui no vídeo, com esse tanto de termo técnico, é porque realmente tá gostando do vídeo, então clica no gostei e coloca nos comentários #euresisti pra mostrar pro pessoal que tá chegando desavisado, até onde você foi. Bom, o que que é essa segunda hipótese da assimilação do cálcio. Nos países que ficam muito próximos aos pólos, como o norte da Europa e a Nova Zelândia, a incidência de raios solares é muito baixa. Nessas populações é comum haver deficiência de Vitamina D que é produzida pela pele exposta ao sol. A vitamina D é importante para a absorção do cálcio no intestino. Na sua ausência, foi descoberto que a lactose aumenta a absorção de cálcio, o que teria, ao longo de milhares de anos, selecionado indivíduos que são lactase persistentes e que conseguiam tomar leite sem maiores consequências.

É importante notar que nem toda pessoa com intolerância a lactose vai apresentar sintomas de má digestão de lactose. O que as pessoas normalmente associam como intolerância à lactose são justamente esses sintomas, mas em populações como a brasileira sabe-se que a maioria das pessoas toleram o conteúdo de lactose de um copo de leite, em média 12,5g, sem maiores problemas. Quando a quantidade de lactose ingerida por iogurtes, queijo, leites e outros derivados supera o limiar que a enzima lactase da pessoa é capaz de digerir, aí que a lactose acaba passando rapidamente pelo intestino sem ser digerida, na forma original, e ao chegar no intestino grosso, causa um desequilíbrio osmótico, que suga muita água para as fezes, tornando elas mais pastosas e líquidas. Além disso, a grande quantidade de lactose entrando no intestino favorece a ação de bactérias que produzem muitos gases e ácido lático, que são produtos da degradação da lactose. Tudo isso interfere no funcionamento do intestino e pode gerar inflamações e dores de barriga.

Consumir lactose com refeições que contenham gordura, diminui a velocidade com que a comida passa pelo intestino favorecendo a digestão completa da lactose em pessoas que têm deficiência da enzima [60,61]. Assim, pode ser por isso que você não passa mal comendo macarrão com carne e queijo, mas fica com dor de barriga quando come só queijo ou bebe leite puro. Além disso, se você não tem opção de tomar leite sem lactose, seria mais interessante você optar pelo leite integral ao invés do leite desnatado e sempre comer alguma coisa junto com o leite. Produtos fermentados, como iogurtes e queijos, também são uma alternativa já que têm menos lactose porque as bactérias e outros microorganismos que participaram da produção desses alimentos já digeriram boa parte da lactose que está ali, antes de você botar pra dentro. 

Pensando pelo lado de que quanto mais tempo o alimento passa no intestino, melhor é a digestão da lactose, condições fisiológicas como estresse e outros medicamentos que aumentem a velocidade do trânsito intestinal podem causar má digestão à lactose e sintomas de intolerância temporários. 

Da mesma forma, a gravidez que diminui a velocidade com que o alimento passa pelo intestino e doenças como diabetes, hipertireoidismo e outras podem gerar um estado de intolerância temporário à lactose ou enquanto durarem essas condições. Cessando a causa, você pode voltar a ter uma vida normal. Por isso, sob qualquer sinal de intolerância à lactose, procure um médico e não perca as esperanças. Assim como nós não perdemos a esperança com a vacina do coronavírus. Se você quer conhecer quais vacinas têm mais chances de serem liberadas primeiro, clica aqui, e continua assistindo ao Olá, Ciência assim como os nossos apoiadores, que não perdem nenhum vídeo e se comunicam diretamente com a gente pelo grupo de membros que amam a ciência. Um grande abraço e até a próxima!

Review: Intolerância à lactose: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6316316/#B32-nutrients-10-01994

Evolução do gene da persistência da lactase: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2711333/

Fatores que afetam a digestão de lactose:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4677112/



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