Por que os idosos têm baixa imunidade?

Todo mundo já ouviu alguém falar que é bom deixar as crianças andarem descalças na terra, entrarem em contato com a natureza, ou tocarem no chão e depois levarem a mão na boca, para aumentar a imunidade, não é mesmo?  Isso porque é importante deixar as crianças expostas a certas “sujeiras”, que contém microorganismos que o corpo vai reconhecer e criar uma resposta imune, podendo combater mais efetivamente as infecções futuras. Essa é a base da imunidade que adquirimos ao longo da vida. 

Mas se nós vamos sendo expostos a diversos microorganismos ao longo das nossas vidas e estimulando o nosso sistema imune, por que os idosos tem o sistema imune tão frágil? Era para eles serem mais resistentes à grande parte dos microorganismos, afinal, eles viveram mais e foram expostos mais vezes ao longo do tempo. 

Mas não é isso que acontece! Ao longo dos anos, não é somente a força física que diminui, mas o nosso sistema imune também enfraquece durante o envelhecimento em um processo chamado IMUNOSSENESCÊNCIA, que é responsável pelo aumento da susceptibilidade a infecções, pior recuperação de doenças, menor proteção de vacinas, maior tendência ao desenvolvimento de certos tumores. E a imunossenescência é também a principal causa por trás do maior risco dos idosos de terem uma infecção grave causada pelo coronavírus.

Nosso sistema imune é o nosso sistema de defesa, responsável por combater as infecções. Se a gente comparar o sistema imune com um exército, as células T do seriam os soldados. Ou seja, essas células T reconhecem o agente invasor, causador de doenças, e participam no combate. E essas células são importantes também no estabelecimento da imunidade de memória, que facilita o combate a infecções futuras pelo mesmo agente.  

As células T são produzidas no timo, um órgão pequeno localizado próximo ao coração. Durante a vida, células tronco da medula óssea viajam pela corrente sanguínea até o timo, onde recebem diferentes sinais que estimulam a multiplicação e o amadurecimento dessas células jovens em células T, produzindo diversos subtipos capazes de reconhecer diferentes agentes infecciosos.

Durante esse processo, algumas células T podem apresentar algum defeito, ou seja, podem não ser capazes de reconhecer os patógenos, o que causaria uma proteção ineficaz, ou podem reconhecer e reagir às moléculas do próprio organismo, o que chamamos de reações autoimunes. Para que isso não aconteça, as células T são selecionadas no timo, e nesse processo, cerca de 95% de todas células produzidas morrem por não passarem nesse “controle de qualidade”. As células T maduras, que sobreviveram à seleção no timo, vão principalmente para os linfonodos, onde proliferam constantemente e são mantidas por um longo período. Quando recebem algum estímulo, elas entram na corrente sanguínea, onde agem como soldados, protegendo o organismo contra infecções e doenças prejudiciais.

Só que tem um porém. A partir da adolescência, o nosso timo começa a regredir: diminuir seu tamanho e sua função. Nos recém nascidos, o timo pesa cerca de 12 a 15g, chega a pesar de 30 a 40g nos adolescentes, e nas pessoas com idade em torno dos 60 anos, pesa apenas 10 a 15g. Como consequência, ao longo das nossas vidas, cada vez menos células T são produzidas, reduzindo nossa proteção contra novas infecções, o que é agravado nos idosos. Por isso é essencial que haja exposição a diversos agentes infecciosos no início da vida, para termos subtipos diversificados e funcionais de células T de memória para combater as infecções futuras. 

Apesar dessas consequências imunológicas, a diminuição do timo é um processo que pode ter evoluído para o benefício do próprio indivíduo, para ECONOMIZAR ENERGIA! 

O timo necessita de muita energia pra produzir o repertório de células T, e mais de 95% dessas células morrem por apresentarem algum defeito! Apesar de ser fundamental, esse processo de seleção das células T também gasta muita energia, e as vantagens que esse gasto trás não são suficientes para compensá-lo. Então a solução foi tentar reduzir esse gasto energético, reduzindo o tamanho do timo. Durante o envelhecimento, o organismo de forma geral tende a reduzir o consumo de energia, que passa a ser desviada para os órgãos vitais, como coração e cérebro. Além do timo, os músculos e a medula óssea, que também exigem muita energia, começam a regredir ao longo do envelhecimento, mas no caso do timo essa involução começa mais cedo. 

Como existe uma população de células T de vida longa que foram estabelecidas no início da vida e que estão constantemente se multiplicando nos linfonodos, a produção reduzida de células T no timo pode ser tolerada por algum tempo sem efeitos significativos na função do sistema imune. Além disso, como eu já falei, o organismo vai se preparando ao longo da vida pra combater os microorganismos que existem ali na região onde a pessoa mora, porque ela se expõe diariamente a eles. Fica tudo bem, ATÉ QUE UM NOVO ORGANISMO, COMO UM NOVO VÍRUS APARECE. 

No caso da COVID-19, as células T são fundamentais para matar as células infectadas pelo vírus, impedindo a progressão da doença. Mas vocês lembram que a quantidade de células T é menor nos idosos? Pois é aí que começa o problema! Além de terem uma quantidade menor dessas células, as células T existentes respondem mais lentamente aos estímulos, chegam ao local da infecção as vezes tarde demais e ainda apresentam uma eficiência reduzida. E no caso dessa batalha, tempo é fundamental! 

Isso porque o atraso na produção de certas moléculas inflamatórias favorece a multiplicação do vírus, levando a danos severos nas células dos pulmões. Esses danos, associados ao aumento incontrolado da quantidade de vírus no organismo, estimulam ainda mais a ativação de células do sistema imune, que começam um ciclo vicioso culminando na liberação de uma quantidade excessiva de citocinas para tentar combater o vírus. Esse processo, chamado de “tempestade de citocinas”, danifica vários órgãos, incluindo os pulmões, e pode levar o paciente à óbito.

Por isso pessoal, considerando os riscos que a COVID-19 pode representar para os idosos, é extremamente importante que nós façamos a nossa parte, permanecendo em casa e executando todas as medidas preventivas. Mas sabe o que poderia resolver esse problema dos idosos? Imunidade de rebanho, proporcionada por vacinas, que estão sendo desenvolvidas no mundo todo utilizando várias estratégias que você confere nesse vídeo aqui ou se preferir, assista a esse vídeo relacionado. Enquanto isso, já deixa o seu gostei, se inscreve no canal e proteja os seus idosos. Um grande abraço e até a próxima.

Referências:

IDOSOS E COVID: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7145538/

INVOLUÇÃO DO TIMO: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fimmu.2020.00897/full

PERSPECTIVA EVOLUCIONÁRIA DA IMUNOSSENESCÊNCIA: https://www.cell.com/trends/immunology/fulltext/S1471-4906(09)00105-7?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS1471490609001057%3Fshowall%3Dtrue


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