ALERTA! Crianças com COVID-19 desenvolvem DOENÇA RARA

Se alguma coisa boa pode ser extraída da pandemia de COVID-19 é o fato de que crianças não costumam apresentar sintomas graves de insuficiência respiratória. Elas não são imunes ao vírus, mas por alguma razão só representam uma pequena parcela de todas as infecções. E quando eu falo que nós não sabemos muito sobre o coronavírus, estou falando sério, já que nós ainda não sabemos se o que faz as crianças representarem pouco do total de casos é uma menor chance de se infectar ou uma maior chance de não apresentarem qualquer sintoma. Só que mesmo nessa situação aparentemente favorável, alguma coisa muito estranha está acontecendo com as crianças.

Algumas crianças parecem estar desenvolvendo um quadro clínico muito raro, parecido com uma síndrome chamada doença de Kawasaki que causa febre alta, persistente e inflamação generalizada, que pode levar a inchaços nas paredes das artérias, conhecidos como aneurismas. Outros sintomas são linfonodos inchados, vermelhidão e manchas vermelhas pelo corpo. Remédios facilmente tratam essa condição, mas ela pode levar a sequelas caso não seja tratada. Já vimos que aproximadamente ¼ das crianças não tratadas para doença de Kawasaki desenvolvem danos nas artérias coronarianas, que são responsáveis pelo suprimento de sangue e oxigênio para o músculo do coração e podem, inclusive, vir a óbito.

Enquanto a descrição na literatura dizia que essa doença rara afetava apenas 20 de cada 100.000 crianças de até cinco anos, um grupo de médicos de Bergamo, na região mais afetada pela COVID na Itália relataram 10 casos durante o surto de coronavírus, o que representa uma incidência em um mês 30 vezes maior do que a que foi relatada em 5 anos na Itália e em crianças mais velhas de até 16 anos. Será que justamente agora durante um surto de COVID 19 essa doença resolveu aparecer ou é a COVID que pode estar causando essa estranha síndrome em crianças?

Bom, sabemos que a doença de Kawasaki é muito rara, então é realmente muito estranho que ela tenha aparecido em várias crianças ao mesmo tempo justamente durante o surto de coronavírus. Um hospital na Itália relatou 10 casos dessa estranha síndrome nos últimos dois meses, sendo que só 19 casos haviam acontecido nos últimos cinco anos [1 https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31129-6/fulltext]. Das 10 crianças que apresentaram a síndrome, 2 possuíam o vírus ativo no corpo e 8 apresentavam anticorpos contra ele, sugerindo que ele poderia ser o fator que fazia disparar essa condição tão rara. Também relataram uma diferença na idade das crianças afetadas. A doença de Kawasaki tradicional atinge crianças bem jovens de até 3 anos, enquanto a síndrome multiinflamatória associada à COVID-19, como ela vem sendo chamada está afetando crianças de 5 a 10 anos. Logo depois, o Reino Unido relatou casos e em meio à pandemia em Nova York, epicentro da COVID nos Estados Unidos, já foram notificados mais de 100 casos e estão encontrando mais [2 https://www.nbcnewyork.com/investigations/kawasaki-disease-up-to-5-ny-children-dead-85-sickened-by-rare-covid-related-illness/2411571/].

Estranhamente, nos Estados Unidos, os casos estão acontecendo em jovens e jovens adultos, de 12 a 25 anos, o que indica que essa síndrome não parece ser simplesmente a doença de Kawasaki que acomete crianças jovens, apesar de ambas apresentarem sintomas muito parecidos. 

Ao mesmo tempo, alguns estudos discutem que a COVID-19, por ser uma doença que pode levar a um quadro inflamatório disseminado e problemas cardiovasculares, seria o gatilho para disparar uma síndrome de Kawasaki, independente da idade [3 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32464327/].

Sério, eu passei horas pesquisando sobre como essa síndrome pode estar ocorrendo em crianças e jovens adultos e a verdade é que nós ainda não entendemos muita coisa sobre suas causas. O que nós realmente sabemos é que a síndrome de Kawasaki é uma reação inflamatória que pode ser disparada por vírus, bactérias e outras causas ambientais, mas nós ainda não conseguimos provar se esses casos que vem ocorrendo durante a pandemia são diretamente causados pelo coronavírus no corpo ou se a presença dele dispara essa reação inflamatória quando a outra causa já está presente no organismo. Até pouco tempo atrás, nós achávamos que essa síndrome poderia ocorrer após o coronavírus ter sido eliminado, quando o sistema imune iniciaria uma resposta inflamatória contra o próprio corpo. Mas um estudo publicado no dia 10 de junho, muito recente, apresentou o caso de um bebê de 6 meses com sintomas de síndrome de Kawasaki e com presença ativa do coronavírus no corpo, o que nos leva a crer que essa reação se inicia enquanto o vírus ainda não foi eliminado.

Bom, em epidemiologia é sempre assim. E apesar de isso gerar uma certa ansiedade nas pessoas, pelo fato de não sabermos exatamente o que está causando esses quadros graves, é por meio de estudos de casos, estudos de observação é que nós começamos a traçar as reais causas dessas doenças. Assim como foi em 2015, quando o Ministério da Saúde e uma rede de pesquisadores fez um trabalho fantástico traçando a relação entre um estranho surto de microcefalia e a presença do vírus da Zika em grávidas no Nordeste do Brasil. 

Durante as pesquisas, embora a gente tenha encontrado pouca informação sobre essa estranha síndrome de Kawasaki, uma mensagem ficou muito clara em vários trabalhos e um deles [4 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7196408/pdf/main.pdf] me chamou a atenção, pelo tom da mensagem e porque é um alerta, tanto para os pais de crianças e adolescentes, quanto para os profissionais de saúde. Ele diz assim: Devido às medidas de “ficar em casa” e o risco imposto pela COVID-19, muitos pais agora estão hesitando levar seus filhos para consulta. Isso levou a uma redução nos atendimentos de emergência e à internações para quadros críticos. Ao mesmo tempo, pelo fato de todos os profissionais de saúde estarem focados na COVID-19 sempre que encontram pacientes com febre, eles podem facilmente ignorar outros sinais e errar o diagnóstico da síndrome de Kawasaki, que se não tratada corretamente, pode levar ao desenvolvimento de aneurismas e infarto do miocárdio em 25% das crianças.

E aí eles finalizam: nós respeitosamente, lembramos os profissionais de saúde para seguir os protocolos nos cuidados das crianças sempre atentando para a suspeita de síndrome de Kawasaki em crianças com febre persistente. E aí depois eles dão todo o protocolo do que fazer em uma linguagem médica que eu não queria entrar aqui. Mas é isso. 

Quando todo mundo tá preocupado com uma única doença, a gente se esquece das outras e isso não pode acontecer, pessoal. Esse vídeo é um alerta, não só para pais de crianças, mas também para você, que tá assistindo, seja mais jovem, da minha idade, ou mais velho que eu. Se você tem uma condição, de suspeita, de que pode estar com alguma doença ou tem que fazer um acompanhamento médico de rotina, más tá com medo de ir ao hospital, busque orientação profissional, pois a quantidade de relatos que eu recebi de pessoas que faziam acompanhamento de câncer e não estão indo ao hospital por causa da COVID, gente que fazia exame preventivo de mamografia, próstata, útero e tá deixando de ir é muito grande viu. Outro dia ouvi um colega médico dizendo que atendeu uma pessoa com infarto cuja dor se iniciou há quatro dias e a pessoa ficou em casa, até finalmente buscar um hospital. Vamos ter consciência pessoal!

E pra ficar mais consciente do que tá acontecendo ao redor do mundo, dá uma olhada nesse vídeo que fala sobre um fungo superresistente que tá circulando lá nos Estados Unidos em plena pandemia de COVID e pode se espalhar pra outros lugares ou assiste esse vídeo relacionado. A pandemia tá deixando muita gente com medo, por isso, o melhor é ter informação de qualidade, o que você encontra aqui no Olá, Ciência. Um grande abraço.

Fonte para imagens: https://hosppeds.aappublications.org/content/10/6/537.long


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