Ivermectina: Tratamento precoce salva vidas?

REFERÊNCIAS:

1. Teste in vitro Ivermectina X COVID realizado na Austrália

2. Estudos in vitro e in vivo usando ivermectina, antes da COVID

3. Teste clínico Ivermectina na Tailândia para tratar Dengue

4. Ministério da Saúde da Bolívia recomenda o uso de ivermectina

5. Remédios testados para COVID-19, incluindo um para câncer de próstata

6. Dose de ivermectina não alcança concentração necessária para ter efeito

7. Estudos científicos apontam efeitos neurotóxicos do SARS-COV-2

8. Estudo não publicado – Ivermectina reduz mortalidade em pacientes

9. 14% dos que se expõem ao SARS-COV-2 apresentam sintomas

ROTEIRO:
Pessoal, antes de começar esse texto tão importante, eu queria dar um recado. Ninguém se preparou pra essa pandemia, ninguém conhecia esse vírus antes da pandemia. Nós temos que tomar cuidado antes de ficarmos acusando as pessoas de conspiracionistas, negacionistas, genocidas, de falar que fulano não tá pensando nas vidas que podem ser salvas. Não estamos aqui pra atacar ninguém, afinal, nenhum de nós é inimigo, nós estamos no mesmo barco e nosso inimigo é o coronavírus. Porém, existem sim pessoas que se utilizam de má-fé, tentando diminuir tratamentos que já existem, que atacam pessoas que são contrárias ao que elas pensam e percebam… que atacam pessoas e não as suas ideias, os seus argumentos. Essas pessoas fazem isso por maldade, por ignorância ou porque tem interesses por trás de uma narrativa. Então dito isso, eu queria que você soubesse que eu fiz um vídeo criticando a live que foi feita no canal do Alexandre Garcia e que em nenhum momento eu tirei esperanças das pessoas que querem tomar a ivermectina, em nenhum momento eu ataquei os médicos que participaram daquele vídeo. Eu fiz um alerta pra você que está assistindo, de que você deve ficar atento que, nesse momento de muita incerteza, vai ter muita gente te vendendo uma cura milagrosa ou um remédio que previne a doença, sem que isso tenha qualquer comprovação científica. Da mesma forma que ainda não sabemos se ele pode funcionar, não sabemos se ele pode causar mal no longo prazo, ou em concentrações altas, algo que nunca foi estudado. Mas se você quer tomar ivermectina, tome. Eu não posso te privar disso. Mas antes de tomar, eu queria te pedir para assistir ao vídeo e ouvir o que eu tenho a dizer.

Nas últimas semanas todo mundo começou a ouvir falar sobre ivermectina no tratamento da COVID19. E muita gente já conhecia esse remédio, já que ele é amplamente usado no controle de piolhos por exemplo. Mas será que a solução da COVID estava disponível o tempo todo e ninguém te avisou? Hoje nós vamos explorar todos os estudos que foram publicados sobre a ivermectina para te mostrar o que sabemos e o que ainda não sabemos sobre essa substância.

A ivermectina é um medicamento utilizado no combate a vermes e parasitas, como as famosas lombrigas, piolhos e carrapatos. Ela atua no sistema nervoso central desses parasitas, causando paralisia muscular, e consequentemente, a morte. 

A fama da ivermectina para tratamento de COVID começou no final de março, quando pesquisadores Australianos publicaram um artigo mostrando que ela inibia a replicação do coronavírus em células

[https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0166354220302011]. Resumindo o experimento, os cientistas colocaram células do rim de macacos em uma placa, acrescentaram o coronavírus, e depois a ivermectina. Eles observaram que na placa com altas doses de ivermectina, a replicação do coronavírus foi inibida, e 48h depois havia 5000 vezes menos coronavírus do que eles haviam colocado lá.   

Mas de onde os pesquisadores tiraram essa ideia de testar esse medicamento? Então, diversos estudos in vitro, ou seja, utilizando células cultivadas em laboratório, já tinham mostrado a atividade antiviral da Ivermectina contra o HIV, o vírus influenza, o vírus da dengue, da zika, e por aí vai. Porém, quando a ivermectina foi testada em um organismo complexo, testada em animais, a maioria dos estudos não observou essa ação antiviral dela  [https://www.nature.com/articles/s41429-020-0336-z]. A ivermectina já tinha sido testada para tratar pacientes com dengue em um teste clínico feito na Tailândia  e a conclusão foi que não houve nenhuma eficácia.

[http://www.rcpt.org/abstractdb/media/abstract/CON2018/Best%20Resident27/BRA_77_Eakkawit.pdf].

Mas se a ivermectina é tão boa pra matar o coronavírus in vitro e é um remédio seguro porque algumas pessoas criticam tanto o uso dela? Estamos em uma guerra, não dá tempo da ciência produzir resultados. Bom eu já vou responder isso, mas antes vamos contar um pouco mais de como chegamos até aqui.

Voltando à COVID, assim que esse estudo australiano mostrando a Ivermectina contra o coronavírus foi publicado, já começaram a surgir suposições do seu uso para humanos, mesmo que nenhum teste tenha sido conduzido! E em alguns países como Bolívia e Peru, o ministério da saúde autorizou o uso desse remédio para tratamento de COVID-19 [https://cdn.www.gob.pe/uploads/document/file/694719/RM_270-2020-MINSA.PDF] [https://www.minsalud.gob.bo/4157-ministerio-desalud-autoriza-uso-de-ivermectina-contra-el-covid-19-bajo-protocolo]. Quem assiste aos vídeos aqui do canal sabe que menos de 10% dos remédios testados em células chegam até as prateleiras das farmácias. Isso porque nosso corpo é muito mais complexo do que uma célula cultivada em condições ideais em laboratório. Além disso, diversos remédios utilizados para o tratamento de outras doenças, vem sendo testados contra o coronavírus, porque é mais fácil e rápido reposicionar um fármaco que já é comercializado, que já passou pelos testes de segurança, do que criar no novo remédio. Por isso, vemos vários trabalhos mostrando a ação de inúmeros medicamentos em inibir a replicação do coronavírus em cultura de células. Até um remédio utilizado no tratamento de câncer de próstata já foi testado contra o coronavírus, e apresentou resultados positivos in vitro [https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1043661820312688?via%3Dihub]. Não é pra divulgar e sair tomando não ein.

Mas, de novo, se o estudo australiano mostrou que a ivermectina é tão boa pra matar o coronavírus in vitro e ela não faz mal, porque não liberam ela logo de uma vez aqui no Brasil? Então. O problema é que quando tomamos algum remédio, primeiro ele é absorvido e metabolizado antes de chegar nas nossas células do pulmão, então por mais que a gente tome um comprimido com 6mg de ivermectina, não vão chegar 6mg de ivermectina no pulmão.

Uma das críticas ao estudo australiano mostra que a concentração de Ivermectina que foi capaz de inibir a replicação do coronavírus em células é muito, mas muito, mas muito maior que a concentração que chega no pulmão após uma pessoa tomar o medicamento. De acordo com essa pesquisa [https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32330482/], se uma pessoa tomar  3 vezes a dose máxima da bula que é de 1 comprimido pra cada 30kg, ou seja, se ela tomar 3 comprimidos a cada 30kg, ainda assim, é impossível alcançar a concentração necessária pra ter o efeito que ela teve contra o coronavírus no estudo com células. Traduzindo, aumentando a dose, você aumenta as chances de ter efeitos colaterais sem ter efeito algum contra o vírus, mesmo usando a ivermectina como prevenção ou nas fases iniciais da doença. E nós não falamos das interações com outros medicamentos. Mesmo na dose segura, caso você queira tomar, tenha consciência de que a ivermectina é particularmente perigosa para pessoas que tomam drogas anti-depressivas e pra tratamento de ansiedade, conforme explica na bula. Não existe protocolo seguro pra todo mundo.

Ainda não satisfeitos com o resultado, afinal o estudo australiano mostrou uma possível solução para a COVID, os cientistas fizeram outro estudo. 

E se a ivermectina não funciona contra o coronavírus em uma dose 3 vezes maior, qual é a dose que temos que tomar para haver uma ação antiviral em humanos? Tomando como base o estudo em cultura de célula, que é a única referência que temos até agora, um estudo mostrou que [https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/13102818.2020.1775118]. PARA CHEGAR AO NÍVEL NECESSÁRIO, TERÍAMOS QUE USAR 17 VEZES A DOSE MÁXIMA JÁ TESTADA EM HUMANOS, QUE JÁ É 100 VEZES MAIOR QUE A DOSE USUAL. 

E como a Ivermectina é um remédio que age no sistema nervoso central, lembra, que ele ataca o sistema nervoso dos parasitas, ele também pode atacar o nosso dependendo da dose. Utilizá-lo nessas doses tão altas não parece uma boa ideia, não é? Bem, nosso corpo tem uma estrutura chamada de barreira hematoencefálica que impede que algumas moléculas passem da corrente sanguínea para o cérebro. Então, se a Ivermectina for utilizada nas doses seguras, recomendadas na bula, essa barreira é capaz de impedir a entrada do medicamento no nosso cérebro, não causando nenhum efeito adverso. Mas a overdose de Ivermectina já foi associada à episódios de sonolência, distúrbios visuais, perda de coordenação dos movimentos voluntários, flutuações da pressão arterial [mesma ref anterior], e aqui eu não tô falando que isso vai acontecer com você, mas sim que esses efeitos indicam, que em altas doses, ela pode penetrar nessa barreira.

Agora eu te pergunto. Nesse momento, você sabe se você está com coronavírus? Sabe porquê que eu tô perguntando isso?

Porque estudos científicos têm mostrado que o coronavírus pode ajudar a romper a barreira hematoencefálica [https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/9702], permitindo que diversos medicamentos, incluindo a Ivermectina, cheguem ao cérebro em doses que não chegariam, e causem os danos neuronais que normalmente não causariam. É por isso que a utilização da Ivermectina em pacientes com COVID, principalmente em estado grave, pode ser neurotóxica. Então, por mais que muitos médicos afirmem que a ivermectina não faz mal algum, nós sabemos que ela pode fazer mal na presença do coronavírus. O quão mal ela pode fazer ainda está sendo estudado pela ciência que muitos vem ignorando.

Em relação aos testes clínicos usando Ivermectina, não temos nenhum resultado até agora.

Tem um estudo retrospectivo que está sendo muito compartilhado nos grupos de whatsapp, ou seja, avaliando a ficha de pacientes que tomaram ou não ivermectina nos Estados Unidos, e como a COVID progrediu em cada caso. [https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.06.06.20124461v2.full.pdf+html]. 

Esse estudo ainda não foi publicado em uma revista científica, então ele não foi revisado, ele foi apenas colocado em um repositório, que não foi criado para que pessoas sem conhecimento científico acessem. Esse repositório existe para que outros cientistas saibam o que está sendo produzido por outros laboratórios no mundo e possam opinar, além de analisar com muita cautela! Esse repositório contém muiiitos estudos fracos, em andamento e que não foram feitos pra que você leia sem que tenha o mínimo de consciência de que aquilo é preliminar. Beleza, mas o que o estudo fala? Pacientes com coronavírus foram divididos em dois grupos para comparação:  o grupo 1 recebeu os cuidados médicos usuais o grupo 2 recebeu, além desses cuidados, pelo menos uma dose de Ivermectina em qualquer momento da hospitalização, pode ser na fase precoce, pode ser com 2 dias, pode ser na fase grave. O estudo concluiu que a mortalidade foi menor nos pacientes que receberam a Ivermectina. 

Pô legal demais, é uma evidência a favor da ivermectina. Só que, além da Ivermectina, a maioria dos pacientes testados também utilizaram hidroxicloroquina e azitromicina, e o uso desses medicamentos foi maior no grupo 1, ou seja, o grupo que não tomou ivermectina teve mais pessoas usando hidroxicloroquina e azitromicina em maior quantidade. É muito, é muito difícil eu explicar o problema disso pra vocês. Não desmerecendo ninguém aqui, mas quando os autores de um trabalho se propõe a comparar dois grupos pra testar se determinado medicamento funciona, esses grupos tem que ser muito parecidos. Nesse, os dois grupos eram diferentes. Ah e daí cara, a ivermectina funcionou. Aí que vem o problema, meu caro. Ao mesmo tempo em que o grupo que tomou mais ivermectina teve menor mortalidade, por consequência óbvia, o outro grupo, o que tomou hidroxicloroquina e azitromicina teve maior mortalidade. 

Pela lógica dos autores, o estudo poderia facilmente ter o seu título alterado de Uso de ivermectina é associado à menor mortalidade para Uso de hidroxicloroquina e azitromicina é associado à maior mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19. Nessa hora, o cérebro do pessoal que apoia o kit covid que mistura todas essas drogas bugou e eles clicaram no deslike e fecharam o vídeo.

Se os autores não se preocuparam em selecionar pacientes e separá-los em grupos com características semelhantes, como cientista, eu assumo que eles não se preocuparam em saber se os pacientes do grupo que tomou a ivermectina teve outro tratamento não medicamentoso que possa ter contribuído, por exemplo, se os pacientes receberam ventilação mecânica de forma diferente do outro grupo, se receberam outros remédios. Eles não explicam. Porque esse não foi o objetivo do estudo, o que ele faz ele ser muito fraco como evidência de que a ivermectina funciona. A própria autora do estudo, ouvindo as críticas no repositório, diz que está refazendo as análises e se ela não chegar em um resultado melhor, ela não vão publicar o estudo e você aí já vai ter tomado ivermectina, compartilhado esse estudo como se fosse uma verdade pra um monte de gente disseminar essa desinformação por aí.

Por isso é muito importante, quando se compara dois grupos, que as características dos participantes sejam semelhantes, garantindo uma interpretação melhor dos resultados. Por essa razão, pessoal, que eu sempre falo, que nós temos que esperar o resultado publicado em uma revista científica.

Vários testes clínicos estão em andamento no mundo todo para investigar a eficácia da Ivermectina em pacientes hospitalizados e até mesmo para prevenção da COVID, e os resultados devem sair nos próximos meses. Mas aqui no Brasil essa estratégia de tomar Ivermectina na fase inicial da doença, ou como forma de prevenção, já começou a todo vapor, antes de qualquer indício de seu benefício. Vários médicos, que não estão se pautando na boa medicina baseada em evidências científicas, estão espalhando mensagens, principalmente nas redes sociais, falando que, se administrada nos primeiros dias de sintomas, a Ivermectina pode conter a disseminação do coronavírus no organismo. E que isso evitaria a piora no quadro clínico e consequentemente a internação e o óbito. Mas apesar do FDA, do Ministério da Saúde e da Anvisa não reconhecerem a Ivermectina como medicamento contra a COVID, alguns insistem em dizer que ela é até melhor que a cloroquina, porque mata todos os vermes. Várias cidades já adotaram a distribuição de ivermectina como política de combate ao coronavírus, distribuindo o remédio para a população. E nós já estamos vendo a consequência dessa disseminação de desinformação: o estoque de Ivermectina das farmácias está esgotando rapidamente. Então daqui a pouco, quem realmente precisar do remédio pra tratar um verme ou piolho não vai encontrar.

E tem mais, se você ficou até aqui, você vai ficar até o final, então eu te agradeço de coração. Comenta aí embaixo pra demonstrar o apoio a esse tipo de conteúdo #euapoioaciencia e caso você queira ajudar a gente a continuar esse trabalho contra o negacionismo, por que olha meu amigo minha amiga, tá difícil viu, tem um botão seja membro aí embaixo. Depois que termianr o vídeo, clica nesse botão e conheça como você apoiar a gente financeiramente, beleza? 

Olha só, vamos lá, olha que interessante esse estudo! Foram avaliadas pessoas que tiveram uma exposição ao coronavírus considerada de alto risco, ou seja, pessoas que tiveram contato próximo ou convivem com alguém que tinha COVID, confirmada pelo teste de PCR, e não estavam usando máscara ou outro equipamento de proteção no momento desse contato. Ou seja, são pessoas que tinham tudo pra pegar o vírus [https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2016638]. Foi observado que, após essa exposição,  apenas 12 a 14% das pessoas apresentaram sintomas de COVID ou foram confirmadas com coronavírus, e menos de 1% foram hospitalizados. Esse resultado é muito interessante porque confirma que uma pequena parte das pessoas chegam a apresentar sintomas ou são confirmadas, e uma parte menor ainda evolui naturalmente para a forma grave da doença. Sendo assim, muita gente pode tomar ivermectina, ou alho com água quente, ou o que for, e não apresentar forma grave, ou nem chegar a apresentar sintomas! Qualquer coisa que você tomar como preventivo ou profilático vai parecer benéfico e milagroso, mas foi apenas o curso normal da doença. 

E o pior, pessoal, é que muitas vezes, quem toma esses remédios preventivamente, pode se sentir protegido e relaxar as medidas de isolamento e distanciamento social, favorecendo ainda mais a disseminação do vírus. 

Então gente, a única vantagem da Ivermectina parece ser a ausência de efeitos colaterais nas doses indicadas na bula, o que nós sabemos que não é suficiente para impedir a replicação do vírus. Por isso, não se arrisque, siga a ciência, questione, pesquise! Mas se mesmo assim você quiser tomar Ivermectina, na melhor das hipóteses, pelo menos, teremos uma população livre de piolhos e vermes. Assim como essas crianças, que apesar da felicidade de estarem brincando com seu tablet, estão sob risco de desenvolverem uma doença rara quando se expõem a COVID-19. Não sabia? Então clica nesse vídeo e conheça tudo sobre a síndrome de Kawasaki que pode acometer crianças ou nesse vídeo relacionado. Se inscreve, siga a gente no instagram e clica no gostei. Um grande abraço e até a próxima.


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