África e Ivermectina: Está mesmo vencendo a COVID-19?

REFERÊNCIAS

1. Programa de Controle de Oncocercose da OMS

2. Resultados do Programa de Controle de Oncocercose da OMS

3. Vídeo da Dra. Lucy Kerr sobre Ivermectina

4. OurWorldInData – De onde tirei todos os gráficos

5. Carta de Pesquisadores de Ruanda explicando o sucesso do país

6. Informações demográficas Etiópia

7. Distribuição da população em cidades da Etiópia

8. Pirâmides Etárias dos países – De onde tirei os dados

9. Distribuição de McDonalds pelo mundo

10. Correlações citadas e outras correlações espúrias

ROTEIRO

Depois que a ivermectina surgiu como uma droga que potencialmente poderia tratar o coronavírus nas suas fases iniciais ou até mesmo como prevenção da COVID, muita gente se pautou no argumento de que a ivermectina realmente funciona porque países que já utilizavam essa substância em programas de prevenção de doenças parasitárias não tiveram muitos casos e óbitos nessa pandemia. E a África seria o maior exemplo disso, já que mesmo possuindo baixos índices de saneamento básico e desenvolvimento humano, não tem números altos de casos e mortes por coronavírus. Mas como um continente com tantas dificuldades socioeconômicas poderia estar vencendo a pandemia, enquanto Brasil, Estados Unidos e várias nações europeias que estão entre as 10 maiores economias do mundo já somam centenas de milhares de mortos?

A explicação ficou famosa, especialmente quando médicos começaram a disseminar que na África havia um programa de prevenção à oncocercose, uma doença causada por um parasita que leva à cegueira se não tratada. Esse programa de fato existiu e foi iniciado em 1995 quando a Organização Mundial da Saúde observou o sucesso que iniciativas não governamentais tiveram ao distribuir ivermectina para prevenção e tratamento da doença em diversos países da África [https://www.who.int/blindness/partnerships/APOC/en/]. O programa iniciado pela OMS tratou anualmente mais de 90 milhões de pessoas e preveniu cerca de 40.000 casos de cegueira do rios, como a oncorcercose é chamada. Em 2015, ele foi descontinuado porque o sucesso do programa da OMS fez com que comunidades se conscientizassem do problema e da solução, e passassem a adotar por conta própria a ivermectina, em uma escala de tratamento a cada 6 meses [https://www.who.int/apoc/evaluation/en/]

Seria o uso constante da ivermectina o real motivo para os países da África não terem muitos casos e óbitos por COVID? Uma das principais defensoras do uso da Ivermectina, a Dra. Lucy Kerr, médica radiologista, afirma que sim:

https://www.youtube.com/watch?v=jVWCTbp1HeA Minuto 2:29-3:24. Eu não sei se foi a Dra. Lucy Kerr que disseminou pela primeira vez essa história, mas a verdade é que muitas pessoas acabaram conquistadas pelo argumento dessa autoridade, afinal, ela é médica. (mostra comentários). 

Agora, Tem um trecho desse livro aqui “O mundo assombrado pelos demônios”, do grande divulgador de ciência chamado Carl Sagan, e ele diz o seguinte. “Desconfie dos argumentos de autoridade; autoridades devem provar suas afirmações como todo mundo”. Pág 52 – Alguns consideram a ciência arrogante, especialmente quando pretende rebater opiniões arraigadas ou introduz conceitos que parecem contraditórios ao senso comum” (comentários me chamando de arrogante). É por isso pessoal, que em nenhum momento, a minha intenção é atacar vocês ou a doutora que propôs essa hipótese da África ser protegida do coronavírus por causa da ivermectina. A ciência permite e quer debater ideias e essa, de fato, é uma ideia interessante. Poxa, a gente tem que dar uma olhada nisso, se tão fazendo certo lá e tá funcionando, a gente tem que fazer aqui também. Por isso, eu destaco uma última passagem desse livro, inclusive quem quiser ler, eu deixei um link aí na descrição, onde você pode comprar o livro com desconto patrocinado e ainda ajuda o canal a conseguir produzir mais conteúdo. Ele diz assim (Pág 50): “Não importa o quanto você é inteligente ou amado.Tem de provar sua tese em face de uma crítica determinada e especializada. É estimulada a discussão de ideias”. E é isso que vamos fazer aqui hoje. Será que nos países que tomam ivermectina, a COVID realmente foi controlada por causa dessa droga?

Primeiro eu selecionei alguns países mais populosos do continente que passaram pelo programa de tratamento da Oncocercose da OMS até 2015 e que, portanto, possuem uso semestral ou anual de ivermectina e comparei o número de casos de COVID desses países com a África do Sul, país de maior relevância econômica do continente e que não tem uma política estabelecida de tratamento com ivermectina. Usando dados do OurWorldinData, que consolida dados oficiais dos Ministérios da Saúde dos países, dá pra ver claramente que os países que tomam ivermectina realmente apresentam um número de casos significativamente menor do que a África do Sul.

Só que esse gráfico não considera o momento em que cada país começou a ter epidemia. Afinal, a África do Sul pode ter começado a ter casos bem antes do que esses países e esse ser o motivo dela ter tantos casos a mais.

Por isso, Nós ajustamos a curva para considerar o momento da epidemia, percebam: a curva de um país só aparece nesse gráfico quando o número de casos ultrapassa 1 caso por milhão de habitantes. Após fazer esse ajuste, que é o mais correto na hora de analisar diferentes regiões com coronavírus, vimos que muitos desses países estão no início da epidemia. diferente da África do Sul, que por ser um pólo internacional em que muitas pessoas desembarcam no aeroporto de Joanesburgo e por possuir grandes aglomerações urbanas e grandes cidades, acabou apresentando epidemia mais cedo.

Vemos que alguns países, como a Etiópia, citada pela Dra. Lucy Kerr, o Kênia e a Nigéria estão no início de suas curvas, enquanto a África do Sul é o país que está a mais tempo lidando com a COVID-19 dentre esses analisados. A gente pode notar que a República Central Africana, que também faz tratamento com ivermectina, parece estar até pior do que a África do Sul, mas por estar no início da epidemia, ainda não apresenta tantos casos por milhão de habitantes quanto a África do Sul. 

OK. Mas e esses outros países, Tanzânia, Camarões, Liberia, Congo e Rwanda, que tomam ivermectina? Eles parecem estar lidando muito bem com a COVID, enquanto a África do Sul, que não toma, sofre com a doença. 

Eu busquei as políticas de testes desses países, pra ver se podíamos confiar nos dados que eles estão reportando. E descobri que muitos deles deles apresentam sérias deficiências de testagem, testando apenas pacientes com sintomas que foram internados em estado grave e trabalhadores de serviços essenciais, que são esses países em marrom. Etiópia, Libéria, Congo e outros que tomam ivermectina não têm boas políticas de testes.

Por isso, eles provavelmente apresentam uma subnotificação muito grande de pessoas que não buscam o hospital ou que chegam com sintomas leves e não são testadas. A Tanzânia, por exemplo, nem tem uma política pública de testagem para COVID, enquanto a África do Sul tem uma política de testar toda a população incluindo quem não tem sintomas.

Nem o Brasil, que tem muito mais casos que a África do Sul, adotou essa política de testagem, comum em países desenvolvidos da Europa, Nova Zelândia e algumas poucas nações que se preocuparam com o avanço da pandemia desde cedo, como o Vietnã. 

Apesar disso, dois países se destacam na testagem em relação à maioria, como o Camarões, que testa como o Brasil, ou seja, testa quem tem sintomas e vai até o hospital e Rwanda, esse pequenino país que adotou a política de testagem em massa. Então vamos analisar melhor esses países e também a Etiópia, que apesar da sua política de testagem defasada, foi o exemplo que a Dra. Lucy Kerr deu na sua entrevista, como um país que usa ativamente a ivermectina.

Quando avaliamos as mortes por milhão de habitantes, nós, que já havíamos constatado que a Etiópia estava no início da epidemia quando olhamos o número de casos, confirmamos esse fato quando olhamos as mortes. Passaram poucos dias desde que as mortes no país alcançaram o patamar de 0,1 mortes por milhão.

Já o Camarões, que está em um momento similar à epidemia na África do Sul, apresenta o número de mortos um pouco menor. Só que essa diferença é um efeito da menor testagem do Camarões que fez 8 vezes menos testes por milhão de habitantes do que a África do Sul. 

Vocês podem perceber que enquanto o número de mortes era baixo, o Camarões, em que a população toma ivermectina, conseguia fazer testes suficientes para diagnosticar todos os mortos e ele acompanha a curva da África do Sul, até o momento em que o número de casos começa a exceder a capacidade do país de fazer testes, o número de mortes para de crescer misteriosamente. Bom, se o tratamento com ivermectina tivesse se iniciado aqui, quando o número de mortes se estabiliza eu ia achar realmente surpreendente, mas como nós vimos, a ivermectina é dada lá desde 1995. Então não foi a ivermectina que reduziu o número de mortes por lá, foi a baixa testagem. Se não testa, não tem COVID.

Mas e Rwanda? Se olharmos o número de casos está em um momento similar à África do Sul, mas demorou muito a começar a reportar mortes e o faz estar bem atrás na curva de mortes? Alguma coisa aconteceu nesse país e que ninguém está vendo. Será que foi a ivermectina?

Eu busquei o que está por trás do sucesso de Ruanda no combate à COVID-19 e encontrei essa carta, enviada por pesquisadores da Universidade de Ruanda e do Centro de Biomedicina do país e que foi publicada na Nature. Segundo os cientistas daquele país, Ruanda tem sido um exemplo para os países em desenvolvimento e ganhou destaque internacional pelo seu forte sistema de saúde e medidas de prevenção, que impediram o avanço do coronavírus no país. Outra coisa que explica o sucesso é que o país implementou o lockdown completo, logo depois do seu primeiro caso ocorrido em Março, algo que nunca foi feito na África do Sul ou no Brasil. Uma semana depois iniciou um intenso sistema de rastreamento e testagem de pessoas que tiveram contato com suspeitos ou positivos para COVID, além de testar todos os profissionais que atuam em serviços essenciais e serviços de atendimento ao público, como bancos e bares, após a reabertura [https://www.nature.com/articles/d41586-020-01563-7]. 

A testagem de Rwanda é muito boa. Segundo esse gráfico, vejam que Ruanda que se encontra no início da curva de mortes já testa mais do que Estados Unidos, África do Sul e Coreia do Sul, quando esses países estavam nesse momento da epidemia. É importante falar isso, porque a Coreia do Sul é um país que se tornou exemplo de testagem em massa no mundo, enquanto a Ruanda vem sendo esquecida. 

Ou seja, Ruanda pode ser considerado um caso de sucesso dentre os países africanos e não foi por causa da ivermectina, já que nós podemos facilmente constatar que em países como a República Central Africana que dão essa droga para a população, o número de casos é maior do que na África do Sul. Outro exemplo que eu não havia citado antes, é o Gabão, que também toma ivermectina, está no mesmo momento de epidemia da África do Sul e apresenta praticamente o mesmo número de casos, com muito menos testes aplicados.

Beleza, mas vamos voltar ao caso da Etiópia, que já mostramos que está no início da epidemia. Por que esse país com condições socioeconômicas tão precária apresenta uma velocidade de crescimento dos óbitos lenta quando comparada ao Brasil e À Àfrica do Sul?

A resposta parece se sustentar em duas hipóteses, mas notem, nenhuma delas é a ivermectina. A Etiópia é um dos países que possui uma das menores concentrações de população em cidades do mundo. Dos 115 milhões de habitantes, apenas 24 milhões vivem na zona urbana (https://www.worldometers.info/world-population/ethiopia-population/), ou seja, 80% da população é rural e vive espalhada pelo território do país em pequenas comunidades. Isso faz com que o coronavírus, que depende de aglomerações para se espalhar, não se espalhe, independente se a população faz uso ou não de um determinado remédio. O que barra o coronavírus por lá não é a ivermectina, mas sim o grande distanciamento social entre a população. Pra vocês terem uma ideia, a Etiopia tem praticamente metade da população brasileira e possui apenas 10 cidades com mais de 100 mil habitantes, que concentram apenas 3% da população do país. O restante se espalha por cidades menores e pelas infinitas comunidades rurais de poucos habitantes.

Outro fator importantíssimo que explica porque a Etiópia tem um crescimento de mortes muito lento é a característica da sua população. 95% da população da Etiópia tem menos de 60 anos e, portanto, tem muito menos risco de morrer por conta da COVID.

Fica clara a diferença quando comparamos com a pirâmide do Brasil, que já possui mais de 13% da população idosa. Ou da Itália, que é um dos países com a população mais idosa no mundo.

O efeito da idade da população na taxa de mortalidade dos países africanos é muito claro, quando colocamos isso em um gráfico. A Etiópia, sem um sistema de saúde consolidado consegue ter praticamente a mesma taxa de mortalidade da África do Sul, um país muito mais desenvolvido e que não toma ivermectina. A Etiópia é um dos países com maior número de pessoas jovens, porque devido às condições ruins de saneamento básico, medicina e qualidade de vida, a expectativa de vida da população é baixa, o que faz com que ela morra de outras causas, mas não de coronavírus que é uma doença que mata principalmente os idosos. 

Se a ivermectina tivesse realmente algum efeito em reduzir a mortalidade das pessoas, veríamos uma diferença significativa na curva da taxa de mortalidade da Etiópia, que usa ivermectina, quando comparada à África do Sul que não usa. Não vemos porque uma correlação nem sempre é causa. Apesar de haver uma certa correlação entre os países que usam ivermectina e o seu número de casos, não podemos afirmar que é a ivermectina que tem causa esse efeito protetor. Existem outras correlações que podemos fazer, e será que elas nos dariam soluções milagrosas? Por exemplo, parece haver uma correlação também entre o número de McDonalds na África e o número de casos de COVID, afinal na Etiópia, no Camarões, em Ruanda não tem McDonalds, enquanto na África do Sul tem McDonalds. Olha a quantidade de McDonalds nos Estados Unidos. É claro que é por isso que esse país lidera o número de casos no mundo [https://www.indexmundi.com/blog/index.php/2013/02/25/the-presence-of-mcdonalds-across-the-world/].

Entenderam porque que a gente não pode pegar uma observação isolada e falar que determinada droga funciona? Entenderam porque que a gente não pode fazer correlações e aceitar que uma causa a outra? Olha só algumas correlações que eu separei pra vocês: Quanto mais os Estados Unidos gastam com ciência e tecnologia, mais pessoas se suicidam no país. Quanto mais se consome queijo mussarela, mais doutores em engenharia civil são formados? [http://www.tylervigen.com/spurious-correlations]

Então pessoal, não é porque há uma correlação direta entre o uso de ivermectina e o baixo número de mortes na África que nós devemos assumir que a ivermectina é a causa disso. E sabe, eu tô com outra correlação ótima ótima aqui e essa parece ser verdadeira. Quanto mais você assiste ao Olá, Ciência, mais chances tem de clicar nesse vídeo aqui que vai te contar toda a história por trás da ivermectina ou nesse vídeo relacionado. E quanto mais você clica no gostei e comenta aí embaixo, mais o YouTube divulga esse conteúdo pras pessoas. Por isso, se inscreva no canal para me ajudar nessa missão de divulgar ciência, compartilhe esse vídeo e muito obrigado. Até a próxima.


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