A ciência também confirma a eficácia da cloroquina? É mesmo?

REFERÊNCIAS:

Artigo base do texto

Estudo Randomizado 1

Estudo Randomizado 2

Estudo Randomizado 3

Saiba Mais: Revista Questão de Ciência

ROTEIRO:

Em meio a tanta notícia ruim sobre a pandemia, o Brasil se aproximando dos 100.000 mortos pelo coronavírus e as cidades, após a reabertura do comércio, iniciam um processo de ressurgimento do vírus em uma segunda onda, infelizmente, alguns ainda insistem em espalhar desinformação e acabam confundindo você, que precisa assim como eu, de uma solução para sairmos juntos dessa, afinal, se algum tratamento foi descoberto, precisamos logo que seja disseminado e rapidamente aplicado pela comunidade médica. Enquanto isso, outros lutam para fazer o bem, médicos lutam para salvar vidas e uma série de cientistas trabalham arduamente para encontrar tratamentos e vacinas para nos livrarmos de vez desse vírus. Bom, desta vez, no canal do Alexandre Garcia, foi divulgado um vídeo comentando um estudo da Força Tarefa Henry Ford publicado na Internal Journal of Infectious Diseases, que segundo ele, parece ter sido a evidência que faltava pra fazer a hidroxicloroquina ser considerada de fato um medicamento que funciona pra tratar a COVID-19. Então vamos assistir esse trecho, mas antes deixa o seu like, comenta ai embaixo se você apoia esse nosso conteúdo, pro YouTube entender se esse é um vídeo que merece ser encaminhado adiante. Hoje vamos analisar algo que ninguém te conta sobre como a falta de entendimento sobre o processo que esses estudos passam pra serem publicados pode te confundir. E eu não vou complicar muito não, eu te garanto que quando o vídeo acabar, você vai estar sabendo mais do que 90% das pessoas. Essa é a minha missão, divulgar ciência de verdade, pra que você não caia em charlatanismo e não acredite em qualquer coisa que chega no seu whatsapp. Então vamos lá.

https://www.youtube.com/watch?v=Ul4nhSDEJLQ (3:15-5:31)

Bom pessoal, o que todo mundo queria era uma evidência científica clara e publicada mostrando que a hidroxicloroquina tinha algum efeito na redução da mortalidade pela COVID-19. De fato, o estudo foi publicado, o que já é um grande avanço perante a esmagadora maioria das evidências que têm saído por aí. Mas o que está por trás desse estudo publicado? afinal, ele é mesmo uma evidência de que a cloroquina funciona?

O Alexandre Garcia afirma que os defensores da ciência clamavam por um estudo publicado, randomizado e duplo-cego e que esse estudo selaria de vez essa polêmica, afinal, segundo o jornalista, ele é um duplo cego randomizado. Acontece que não é. Quando você abre o estudo com um olhar mais atento, de alguém que entende o básico de metodologia científica, não é muito difícil perceber que logo na primeira página do artigo, ainda no resumo, os autores deixam claro que se trata de um estudo observacional retrospectivo. 

Mas o que isso importa? Afinal, a mortalidade de pacientes que usaram a hidroxicloroquina ou com ela associada à azitromicina ficou abaixo de 20%, podendo chegar a 13,5%, enquanto no grupo que não usou nenhuma droga, a mortalidade foi de 26%. Bom, importa pra quem entende o que é um estudo observacional. e observa a fundo como foi desenhado o experimento desse caso.

Estudos observacionais não são feitos para dar o veredito final quanto à eficácia de um medicamento. Nas ciências biomédicas, eles servem mais para gerar hipóteses, para abrir portas para novos estudos. Tanto é verdade que o estudo apresentado pelo Alexandre Garcia, além de deixar claro que não se trata de um estudo randomizado e duplo cego, ainda assume a sua limitação ao dizer que os seus resultados devem ser interpretados com cautela e não devem ser aplicados a pacientes tratados fora do ambiente hospitalar, além de precisarem de confirmação em outros estudos observacionais prospectivos, ou seja, que acompanham os pacientes ao longo do estudo. Em outras palavras, o que os pesquisadores estão dizendo com esse trabalho é que eles encontraram uma possível relação do uso da hidroxicloroquina com a redução da taxa de mortalidade e que são necessários mais estudos em ambiente rigorosamente controlado, em estudos randomizados que avaliem a segurança e eficácia da hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados.

Mas que limitações são essas? Bom, o estudo tem um problema grave: foram selecionado 2571 pacientes, divididos em grupos que receberam diferentes tratamentos. Mas foi observado uma grande quantidade de variáveis nesses grupos, que variaram significativamente entre os grupos analisados, o que confunde o resultado. Como por exemplo a idade dos pacientes, que foi maior no grupo que não tomou a hidroxicloroquina. Ou mesmo o uso de corticoides, que foi muito maior no grupo que tomou a hidroxicloroquina. Além disso, o uso de respirador foi muito maior no grupo que tomou a droga. Apesar do estudo ter sido feito em um número grande de pessoas, 2571, para tentar eliminar essa diferença de características entre os grupos, os autores consideraram para o resultado final apenas 190 pessoas que tomaram a hidroxicloroquina e 190 que não tomaram, totalizando 380 pessoas. Naqueles pacientes que puderam ser avaliados dentro do universo de 2571 pessoas, eles encontraram que a hidroxicloroquina reduzia praticamente 50% do risco de morte quando dada nos primeiros dias de internação. E isso tem que ficar bem claro! Primeiros dias de internação, e não primeiros dias de sintomas!   Os autores reconhecem que não tinham a informação completa da duração dos sintomas antes da hospitalização, o que dificulta qualquer conclusão sobre o tratamento com hidroxicloroquina de forma precoce. 


Além disso, por se tratar de um estudo observacional retrospectivo, eles não puderam acompanhar os tratamentos de perto, observar se houve alguma outra conduta que possa ter beneficiado os pacientes tratados com hidroxicloroquina. E tudo bem, faz parte desse tipo de estudo. E aqui que eu queria que vocês entendessem… 

Isso é ciência. Enquanto uns politizam essa droga, falando funciona, não funciona, eu venho aqui te falar pra tomar cuidado com o que você ouve, principalmente de pessoas que você acha que entendem do assunto. Nós vimos claramente que o estudo tem sérias limitações e que não é nem de longe a prova definitiva que estão falando por aí. Afinal, ele é um estudo que é feito pra gerar perguntas e não respostas. Os autores têm plena consciência disso, enquanto jornalistas usam esse tipo de resultado pra fazer palanque político e você tá caindo nessa, colocando esse resultado debaixo do braço ignorando todos os outros estudos, que também têm seus problemas e tá aí pregando que escondem a cura da COVID e que a hidroxicloroquina funciona.

Precisamos parar de politizar resultados científicos. É inegável que os autores encontraram um resultado interessante para o uso da hidroxicloroquina, para pacientes já hospitalizados, não para uso profilático!  E esse estudo não serve para bater o martelo de que a hidroxicloroquina funciona! Estudos observacionais, como esse, geram hipóteses. Eles não conseguem excluir todas as variáveis. Como nós vimos esse estudo não é de perto um estudo randomizado, duplo-cego. Ele é mais um estudo observacional, cheio de limitações, mas que mostra que a hidroxicloroquina parece ter funcionado. Mas sabe o que isso significa? Nada. Um remédio pode parecer extremamente promissor num estudo observacional e, ainda assim, ser completamente excluído quando avaliado em um estudo randomizado.

Isso acontece porque no estudo randomizado controlado você tá lá na porta do hospital e vai selecionando pessoas que atendam às características, pra que todos selecionados sejam o mais iguais possíveis, excluindo variáveis pré-existentes e que sejam aleatoriamente separados em dois grupos, cuja a única diferença é o protocolo de tratamento. No grupo 1, você testa a sua droga. No grupo 2 você testa um protocolo diferente, normalmente, um placebo ou outro tratamento existente. De preferência esses testes são feitos no modelo duplo-cego em que nem os pacientes nem os médicos sabem que estão sendo testados pra evitar com que o médico cuide melhor de um paciente que tomou o remédio testado e enviese os resultados. Por essa razão, esses estudos produzem uma evidência muito mais robusta de que um determinado medicamento funciona.

Já existem estudos randomizados, que têm os seus problemas, que mostram que ao ser testada em ambiente controlado, em que os pacientes são acompanhados de perto, a hidroxicloroquina não teve efeito algum. Mas não existe até agora, nenhum estudo randomizado controlado mostrando efeitos benéficos dessa droga.

Por isso, que quando você entende as limitações de cada tipo de estudo, observacional ou randomizado, e entende o que os resultados significam você pára de acreditar em tudo que te falam na internet. Quando você começa a entender como funciona a ciência, você passa a questionar alguém que mistura política com um resultado científico. Ninguém está querendo tirar a esperança de ninguém aqui. Eu quero abrir seus olhos pra que você entenda de uma vez por todas que essa discussão da hidroxicloroquina não passa de uma distração política de ambos os lados, que tira o foco do real problema: a negação da ciência, algo que é extremamente danoso à nossa sociedade. Por isso, não nego que o resultado do estudo foi positivo pra hidroxicloroquina, falei aqui de forma imparcial reconhecendo o resultado e as suas limitações, por isso se você gostou do vídeo clique no gostei aí embaixo, compartilhe esse vídeo com aquele amigo seu que tá compartilhando lá no grupo de whatsapp que temos o resultado que todos esperavam, mas que pra mim, até agora não mudou nada. A certeza que eu tenho é que algumas pessoas estão precisando se informar melhor em meio a tanta complexidade, assim como quem fez um teste de anticorpos contra COVID e não faz ideia do que significa um resultado IGM ou IGG Reagente. Então se você quer saber mais, clica nesse vídeo ou nesse vídeo relacionado. Clique no seja membro aí embaixo pra você me ajudar nessa missão de divulgar ciência de qualidade e até a próxima. Um abraço, tchau!


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