COVID-19 X VOLTA ÀS AULAS: Está na hora?

Olá pessoal. Hoje eu vim aqui pra conversar um assunto muito sério: volta as aulas. Nas últimas semanas esse tema repercutiu porque alguns estados anunciaram que as aulas iriam retornar, de forma presencial, a partir de agosto. Será que estamos preparados pra isso? Será que é seguro? Esse é o momento certo? E se não for agora, quando vai ser?

Hoje aqui vamos entender um pouco mais sobre a COVID nas crianças e o que aconteceu em alguns países que reabriram as escolas. 

Bom pessoal, são muitas as dúvidas em relação a esse tema, principalmente porque a gente ainda não sabe exatamente o papel das crianças e adolescentes na transmissão do coronavírus. 

Muitas notícias estão circulando por aí falando que as crianças são imunes ao coronavírus. Pessoal, isso não é verdade! Já foi provado que as crianças podem SIM se infectar com o coronavírus. Ele já foi encontrado em crianças e adolescentes de todas as idades, inclusive em um bebê com 1 dia de vida. Mas a maioria das crianças são assintomáticas ou desenvolvem sintomas leves, e poucas evoluem para um caso mais grave. Ainda não se sabe porque isso acontece, mas existem algumas explicações possíveis: Primeiro, a proteína que auxilia a entrada do coronavírus nas células esté em menor quantidade nas vias aéreas das crianças. Por isso, o vírus teria mais dificuldade de entrar no organismo. Segundo, o organismo das crianças apresenta um resposta de defesa diferente dos adultos, que parece ser mais eficaz contra o coronavírus. Isso faz com que o coronavírus seja eliminado antes de causar maiores danos.

Mas apesar das crianças terem menos chances de desenvolver casos graves da COVID, muitos estudos vêm mostrando que elas podem sim transmitir o vírus. Sabemos até agora que a maioria das crianças tem a mesma quantidade de vírus em suas vias respiratórias superiores que os adultos. Mas um estudo mostrou que crianças com menos de 5 anos podem ter entre 10 e 100 vezes mais material genético do coronavírus do que adultos, isso comparando pessoas com características, sintomas e tempo de infecção semelhante. Isso não significa necessariamente que essas crianças espalham o vírus de forma mais eficiente, mas acende um alerta de cautela, principalmente na volta às aulas. Um outro estudo conseguiu isolar o vírus infeccioso da nasofaringe de crianças e adolescentes, indicando que eles podem ser transmissores do coronavírus. 

Então a gente tem nas crianças uma população que muitas vezes é assintomática, e que pode carregar e transmitir o vírus, sem saber. Juntar essas crianças em uma sala de aula é a receita para um desastre!

Outra coisa que a gente tem que lembrar é que o Sars-CoV-2, causador da COVID, é um vírus novo. A gente sabe muito pouco sobre ele, estamos aprendendo agora, com o tempo. A gente não sabe se a contaminação na infância afeta o desenvolvimento das crianças, ou outras consequência a longo prazo. Algumas crianças infectadas estão desenvolvendo um quadro clínico parecido com a Doença de Kawasaki, que ta sendo chamada de Síndrome Inflamatória Multissistêmica. Eu já falei sobre isso aqui nesse vídeo. Nessa doença, a inflamação generalizada causa dilatação das artérias, principalmente as artérias do coração, que pode comprometer a função cardíaca e levar a criança a óbito. 570 casos foram registrados de março a julho, nos Estados Unidos.  Aqui no Brasil também estamos tendo casos dessas Síndrome.

Coronavírus, não é brincadeira. Tem muita coisa que a gente não sabe. 

É difícil a gente manter as escolas fechadas, enquanto o comércio está voltando a funcionar em várias cidades. Muitos estão falando que “não dá pra segurar mais”, porque querendo ou não a vida está tentando voltar ao normal, e muitos pais têm que trabalhar e sem as escolas eles não têm com quem deixar seus filhos. Será então que tá na hora de correr o risco, abrir as escolas, retomar as atividades, e ver no que dá? Tomar todos os cuidados, adotar as medidas de higiene, usar máscara, e tentar retomar?

Mas aí é que tá gente. Não precisa reabrir pra gente vê o que vai acontecer. Estudos em escolas no começo da pandemia e até mesmo agora, em alguns países que reabriram, já tá mostrando o que acontece: com a reabertura, escolas podem esperar casos de COVID em uma semana. 

Um estudo observacional avaliou a relação entre o fechamento das escolas em várias regiões dos Estados Unidos e a progressão e disseminação da COVID. E eles observaram que fechar escolas se associou a uma redução de 62% na incidência da COVID e redução de 58% na mortalidade. Também viram que quanto mais precoce foi esse fechamento, em relação à curva de transmissão do vírus, menos casos foram confirmados. 

Lá no Chile, quando a pandemia começou, em março, o primeiro surto aconteceu em uma escola. Dois funcionários testaram positivo, e imediatamente a escola foi fechada, mas o vírus já tinha se espalhado.  E eles fizeram um estudo aprofundado desse surto, avaliando os alunos, professores, funcionários e pais. E esse estudo revelou o grupo que está mais suscetível a se infectar:  os professores. Enquanto 10% dos alunos testaram positivo para o coronavírus, principalmente entre os mais novos, esse número dobrou entre os professores: 20% testaram positivo. Esse estudo mostrou também que dentre aquelas pessoas que testaram positivo, os sintomas ocorreram primeiro nos adultos, professores ou funcionários, e depois nos alunos.

Tudo bem que nessa época a gente não sabia muito sobre esse vírus igual a gente sabe hoje. Em março, nas escolas, nenhuma medida de distanciamento ou higiene especial estava sendo tomada. Se a gente reabrir as escolas agora, todo mundo vai ter que usar máscara, respeitar o distanciamento, reforçar as medidas de higiene. Mas a gente tem exemplos de países que reabriram e a história foi a mesma: surto de COVID na escola.  

Em Israel, todas as escolas fecharam em março. Dois meses depois, quando a situação da COVID no país estava começando a ficar sob controle, com redução do número de casos diários, as escolas reabriram, tomando todos os cuidados possíveis, como higienização constante, uso de máscara, distanciamento social, interação mínima entre os alunos, e um relatório diário do estado de saúde de todos os alunos e funcionários. 

Mas aí com uma onda de calor extrema, de mais de 40 graus, deixaram os alunos ficarem sem máscara por três dias. Resultado: em uma das escolas, poucos dias depois, dois alunos estavam com COVID. A escola foi fechada e todos foram orientados a fazer o isolamento. Mas já era tarde: 153 alunos e 25 funcionários já tinham sido infectados. E não parou por aí: depois disso foi registrado também 87 casos de COVID entre os contatos próximos desses alunos infectados. Ou seja, cerca de 260 pessoas foram infectadas por causa da reabertura desta escola. 43% dos alunos infectados tiveram sintomas, e entre os funcionários esse número foi maior, de 76%, mas nenhum deles precisou ser hospitalizado.

Uma pesquisa epidemiológica mostrou que na cidade de Jerusalém, em Israel, antes da reabertura das escolas, os jovens em idade escolar, de 10 a 19 anos, eram 20% do total de infectados. Depois que as escolas reabriram, esse número aumentou para 40%. A escola foi o segundo lugar onde mais infecções foram registradas. Esse aumento das infecções entre crianças e jovens se espalhou para a população em geral e parece ter alimentado um ressurgimento de surtos de COVID-19 em Israel, iniciando uma uma segunda onda de casos.

Gente, Israel reabriu as escolas com o surto de COVID controlado no país, com só 20 casos diários registrados. E olha no que deu: uma nova disseminação do vírus. Imagina no Brasil, onde a gente tem uma epidemia sem controle, com 40 mil novos casos por dia, não testamos o suficiente, e não rastreamos os contatos das pessoas que testaram positivo. Você acha que vai da certo?

Existem casos de países que estão tendo sucesso na reabertura das escolas, como é o caso da Nova Zelândia. Mas a Nova Zelândia tá a 100 dias sem detectar transmissão comunitária do vírus! A COVID ta controlada. Vários países europeus também retornaram às aulas, mas só depois de terem controlado a pandemia. 

É muito complicado manter as crianças em casa por tanto tempo. Isso com certeza vai ter consequências não só no aprendizado, mas no psicológico das crianças. Estratégias para tentar minimizar essas consequências já estão sendo pensadas. Os especialistas estão preocupados com as crianças e adolescentes perderem o hábito de estudar, que é essencial para garantir a continuidade dos estudos, e pode com certeza aumentar a taxa de abandono escolar. Mas a segurança tem que vir primeiro. Além da segurança dos alunos, existe também o lado dos professores e funcionários, que estarão em contato com essas crianças, e também estarão mais expostos, e, se tiverem infectado, poderão transmitir o vírus. Existe também o movimento que a abertura das escolas causa nas cidades: profissionais da educação, funcionários, alunos, pais, terão de se deslocar. 

É por isso que cada país vem adotando uma política de reabertura de escolas baseada na sua realidade. Não tem como a gente querer reabrir as escolas nos mesmos padrões e no mesmo tempo em que países que controlaram o vírus estão fazendo. A condição das nossas escolas e dos nossos alunos não é a mesma. Nós temos mais alunos por sala de aula que muitos países. Nós não temos uma política de testagem em massa, o que dificulta a identificação de um caso positivo de forma precoce, então a chance de ter um surto nas escolas é muito grande.  

Falando das escolas, mesmo adotando vários critérios sanitários, como o estabelecimento de turmas menores, mantendo o distanciamento social, a obrigatoriedade do uso de máscara por alunos, funcionários e professores, a gente tem que lembrar que o coronavírus pode ser transmitido por aerossóis, que são liberados não só quando a pessoa espirra ou tosse, mas também durante a fala e até mesmo a respiração! E esses aerossóis são menores e mais leves e podem ficar suspensos no ar. Por isso ficar em uma sala de aula que não tenha ventilação adequada pode ser perigoso!

Enquanto o coronavírus circular sem controle no Brasil, não tem nenhuma medida que as escola possam adotar que impeça os alunos de entrarem com o vírus.

É muito importante discutir a reabertura das escolas. Mas a gente tem que começar a pensar em abrir as escolas quando a gente conseguir controlar o vírus fora dela. As escolas terão que ser abertas, mas com segurança, quando conseguirmos reduzir a taxa de transmissão comunitária. Não tem solução mágica. 

Lá nos Estados Unidos, eles ampliaram a testagem em crianças e observaram que só nas duas últimas semanas de julho, 97 mil crianças testaram positivo para o coronavírus. E só em julho, foram 25 mortes. Então, se você defende a volta às aulas mesmo nesse cenário em que a transmissão continua alta, pense bem. Criança pega o coronavírus. Criança transmite o coronavírus. Criança também morre de COVID. E tem mais: nós ainda não sabemos os efeitos e sequelas que o coronavírus pode causar nas crianças.

REFERÊNCIAS:

https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2768952

https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/10/20-2403_article#r7

https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6932e2.htm

https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/08/06/pe-notifica-dois-casos-de-sindrome-inflamatoria-multissistemica-pediatrica-doenca-rara-associada-ao-novo-coronavirus.ghtml

https://www.businessinsider.com/should-schools-reopen-coronavirus-spread-us-2020-7

https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciaa955/5869860

https://www.eurosurveillance.org/content/10.2807/1560-7917.ES.2020.25.29.2001352

https://www.cbsnews.com/news/covid-19-kids-school-children-positive-tests-coronavirus-reopening/


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